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quinta-feira, 17 de março de 2016

Lusitânia e o epígono cavalar

Lusitania

Foi a denominação atribuída ao território Oeste da Península Ibérica, onde viviam os povos lusitanos, desde o Neolítico. Após a conquista romana passou a designar-se Hispânia, cuja capital era Emerita Augusta, actual Mérida.

Relativamente às áreas de território, fazia parte o actual território português a sul do rio Douro, mais o território pertencente à Estremadura espanhola e parte da província de Salamanca. Esta região é uma das possíveis origens ancestrais de Portugal, com foco em Viriato e no movimento que adveio deste.


Lusitânia durante o período do Império Romano

Pensa-se que este território não foi atingido pelo último período glaciar. Assim, subsistiu um grupo equino que terá evoluído, tendo permitido a sua domesticação e posterior equitação superior. Este cavalo sobrevivente, segundo se sabe, viajou para Oriente ao Norte de África e Ásia Menor, até chegar à China.

O próprio Cavalo Lusitano como é conhecido, foi observado há muitos anos por estas paragens e é descendente deste Cavalo Ibérico, antepassado de todos os cavalos que estiveram na base da equitação em todo o mundo. Por ser um território isolado, aqui sobreviveu e evoluiu desde há aproximadamente quinze mil anos, livre de influências até há bem pouco tempo.




Por variadas razões e critérios de selecção, nos últimos trezentos anos aconteceu um fenómeno que dividiu o efectivo da Andaluzia e de Portugal. Estes efectivos afastaram-se, estando o efectivo português mais próximo daquilo que era o cavalo ibérico dito original, antecessor de ambos.

Durante os séculos XIX e XX, o cavalo vem a sofrer diversas intercepções de sangues estranhos, de maneira a conseguir-se uma maior força de tracção. São aproximadamente duzentos anos, mas os efeitos foram nefastos para o equino, conferindo-lhe maior dimensão e peso, retirando-lhe a ligeireza que tanto o caracterizava. Relativamente à “cabeça”, esta também se deteriorou, perdendo-se a “finura”, ardência, vibração.

Anos mais tarde, percebeu-se que os cruzamentos efectuados fizeram com que houvesse um afastamento à raça original, tendo-se perdido as suas características arnazes. Com trabalho, perseverança e inteligência, os criadores conseguiram, com base numa genética fortíssima, produzir cavalos de maior dimensão e com melhores andamentos, capazes de praticar quase todas as modalidades do desporto equestre moderno, recuperando assim as suas características originais, aliás reforçando-as.

Durante os anos 70, particularmente entre 1974 e 1975, Portugal passou por um período bastante conturbado quer ao nível económico, quer politico e social, que acabou por se instalar na região do Ribatejo e do Alentejo, pondo em risco a sobrevivência da raça Lusitana, inspirado numa reforma agrária ignorante advinda de um poder politico desadequado. No entanto, nem tudo foi mau, os interessados nesta raça uniram-se e lutaram contra estas políticas nefastas, evitando a perda das suas propriedades genéticas ou até a sua extinção.
A Revolução passou, mas os ideais e o acreditar no produto nacional fez com que o grupo de principais criadores do Cavalo, presidido por Fernando d’Andrade, definisse com muito rigor o padrão da raça, base de partida fundamental para a melhoria na selecção. Houve, de facto uma redefinição de prioridades, de maneira a colocar o Cavalo noutro patamar, seleccionando-o.

Agradece-se à família Veiga que, de uma maneira persistente, acreditou no cavalo Lusitano e resistiu durante gerações a cruzamentos pouco sérios. No entanto, os génes da raça sobreviveram em todas as Coudelaria, pois a raça andava tipo "mascarada", as caracteristicas originais estavam lá, apenas apareciam "abafadas", devido aos cruzamentos com outros cavalos mais pesados, como foi explicado acima.

Actualmente já existe uma exigência relativamente à suavariabilidade genética. 

É fulcral manter-se as quatro grandes familias dentro do efectivo actual: 


Estas coudelarias são a base da raça Lusitana que hoje conhecemos e que de facto se aproxima, cada vez mais, da original. Sabe-se que a História e os conhecimentos de equitação foram pilares fundamentais na recuperação da raça, como é espectável, daí estarem incluídas as Coudelarias mais afamadas, pois também elas posuíam os criadores de cavalos mais conehcedores da matéria.

Recentemente reuniu-se os jurados portugueses da raça Lusitana, passados cerca de trinta anos da redação do texto que prevê a definição da padronização da raça, e nada foi necessario corrigir, o que a mim me sugere que, o desenvolvimento da raça está em boas mãos e em bom caminho.

Sabe-se que o Cavalo Lusitano está a ser cada vez mais utilizado nas mais diversas áreas e em todo o mundo, como seja:

  • Competição
  • Toureio
  • Arte Equestre

De facto o universo cavalar reune imensa gente, desde curiosos, a entendidos, diletantes e outros tantos, mas o interesse e o encanto pelo cavalo manfesta-se imenso nas artes. 

Segundo Serrão de Faria (Azinhaga, Golegã 1937), "pinto o cavalo lusitano, por nenhum outro animal transmitir sentimentos tão nobres e uma tão grande sensação de liberdade". José Francisco Quelhas Serrão de Faria é conhecido por "pintor do cavalo lusitano". A sua Obra retrata magistralmente sobre o papel, sobre a tela, as “linhas”, dos magníficos ‘filhos do vento’ da Lusitânia.  É com fina sensibilidade, profundo conhecimento e singular arte que representa com os seus pincéis, também os campinos e as suas montadas na sua faina diária, o gado bravo, e a paisagem da lezíria e do espargal. A sua oficina de criação insere-se no Solar dos Serrão, casa de família do século XVI, na Azinhaga. Frequentou cursos de gravura, litografia, serigrafia e xilogravura na Cooperativa de Gravadores Portugueses. Como caudeleiro, foi ainda Presidente do Stud-Book Lusitano e autor de publicações sobre o Cavalo, tais como “Caballus”, “Ginete Ibérico” e o “ Solar do Cavalo”. Autor ainda de outros livros como, “Dois Dedos de Conversa”, “Futebol, Iluminuras e Textos Consagrados”, “ Vales Traçados”, “Lisboa do Rio para as Colinas” e “Olivença”, foi ainda colaborador do jornal “ A Capital” e de vários outros jornais e revistas. Está representado em várias colecções particulares, nacionais e estrangeiras.


Eguada de Alter Real,Serrão de Faria, aguarela, 2011

Jorge José Gomes de Carvalho Alexandre nasceu em Vila Franca de Xira em 1956. Pelas mãos, mas principalmente pela sensibilidade dos Mestres José Noel Perdigão, Júlio Goes, Caldeira Martins e outros que a memória não esquece, saboreia a ternura da aguarela.

É o autor dos retractos dos matadores Vilafranquenses expostos no Café Central, da colecção “ Cenas Taurinas” patentes no pátio Galache, da obra “ Campinagem I” exposta no Salão Nobre da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e da colecção “ Rdol” patente na Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira. Em 2008 é lançada pela empresa Adine, uma colecção de imanes reproduzindo 5 obras suas e  é responsável pela decoração da maternidade do Hospital Reynaldo dos Santos em Vila Franca de Xira.

Em 1999 recebeu a distinção de mérito cultural da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira.
Certificado pelo Centro de Formação contínua da Universidade do Minho, presta actualmente formação na área da expressão plástica.
Iniciou a sua actividade profissional como cartoonista na revista “ O Século Ilustrado”, nos anos 70 e trabalhou na área da publicidade nas duas décadas seguintes. Expõe desde a década de 80 em Portugal e no estrangeiro, contando no seu currículo com a realização de dezenas de exposições individuais e colectivas e está representado em colecções particulares em Portugal, Espanha, França, Itália, Suécia, Dinamarca, Brasil, Índia, Japão e Noruega.
Detentor de vários prémios na área da pintura, entre os quais, o 1º. E 3º. Prémios na 2ª. Bienal de Benavente, o 1º. Prémio Cidade de Tavira e o 2º. Prémio da Vila de Salvaterra de Magos, o Artista está mencionado  em Arte 98 de F. Infante do Carmo, no anuário Europeu de Arte 2000 e na publicação em Portugal 2001 e no vídeo “ Aguarela-Arte Maior” de Afonso de Almeida Brandão.
É, desde 2002, Presidente da Direcção do GART-Grupo de Artistas e Amigos da Arte, Associação que tem divulgado a Arte enquanto sensibilidade de cada um, num todo, por todo o Mundo.
Com Vítor Casquinha concebe pensamentos como “da Aurora ao Ocaso a Teimosia de Resistir”, o que dá origem ao monumento ao trabalhador rural em Arruda dos Vinhos que cria e executa solicitando a ajuda do Mestre Júlio Carmo santos.
Autor de vários cartazes, sendo em 2008 convidado a criar todos os cartazes da temporada taurina na Praça Palha Blanco em Vila Franca de Xira.


Jorge Alexandre, aguarela, 2015
Beatrice Bulteau nasceu em Sancerre, França, em 1959. Em 1980 instala-se em Portugal e inicia uma nova expressão em aquarelas. Escolhe o cavalo como suporte da sua pintura, desenvolve e aprofunda o seu estudo anatómico, tornando-se uma exímia representante do seu movimento. O Cavalo Lusitano é indubitavelmente um dos mais preciosos tesouros vivos do património cultural português. Bulteau tem-lhe um carinho especial e retracta-o de uma forma única e apaixonada, revelando aos nossos olhos toda a sua beleza , força e coragem, aos quais não nos é possível ficar indiferentes.
Segundo Fernando Tavares Rodrigues in Os Cavalos Mágicos do Bulle, “são estes cavalos que, há mais de trinta anos fascinam Bulteau e nos conduzem a outros espaços onde o sonho e a beleza dão as mãos silenciosas. Os seus cavalos são livres. Viajam em vasos de barro e folhas de papel e relincham e galopam quando olhamos para eles. Não há rigor fotográfico. Há encanto, sensualidade mesmo. À flor da pele”.
Uma inevitável cumplicidade com os materiais e as cores. Os movimentos quase a sair do papel, a força a ensaiar uma coreografia que os vasos tentam, em vão, conter para nós que, incessantemente os descobrimos e repetidamente nos rendemos a essa beleza que matéria alguma pode aprisionar. Em todas as obras de Beatrice Bulteau há um convite ao sonho, que sendo dela, também pode ser nosso. Ela faz-nos sentir, olhar, cheirar. Apetece-nos tocar, montar, domar. Como se todos os cavalos fossem Pégaso e, nós, apenas velhos deuses com pena de ficar….
Beatrice viajou pelo mundo e levou com ela o Cavalo Lusitano sempre representado nas suas exposições. Desde 1984 o seu trabalho tem sido apresentado em 25 estados dos EUA, no Japão, no Canadá, na Europa e recentemente no Oriente e Oriente Médio. Mais recentemente passando por São Paulo na Galeria Romero Britto e Museu Equuspolis, Golegã, Portugal. 


Lusitanos, Beatrice Bulteau, aguarela

Também na Poesia é rei, segundo Alexandre O'Neill In Forte mas fraco (1971):

Nada na mão / algo na v'rilha
remancho as noites / e troto os dias
entre tabaco / viris bebidas
fraco mas forte / de muitas vidas
(que eu já dormi / co'as duas mães
e as duas filhas / que vão à missa
com três mantilhas)

Nada na mão / algo na v'rilha
sofro comigo / luta intestina
(ao bem ao mal / a mesma alpista)
bebo contigo / cerveja uísqui
p'ra que se veja / mais rubra a crista

Nada na mão / algo na v'rilha
encontro a morte / no meio da vida
morte bonita / nada aflita
(ou é da minha / tão fraca vista?)
e tenho sorte

Nada na mão / algo na v'rilha
invisto contra / o zero puro
da minha vida

e duro, duro!

E continuará a inspirar-nos nas mais diversas matérias...
André Lopes Cardoso

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Da Música à Pintura


Introdução

A seguinte investigação tem como objectivo, apresentar o processo criativo de Paul Klee. Para uma explicação mais simplificada, apresenta‐se também a vida e obra, de modo a podermo‐nos situar mais facilmente as épocas, mas também nas fases de Klee.
A escolha do autor a tratar foi complexa, pois nunca tive um desafio deste género, estudar o processo criativo de um autor. A par disso, escolhi Paul Klee, pois identifico‐me com ele, a relação com a Música transmitida através da Pintura. No meu caso particular, não me relaciono intimamente com a Música, mas sim com as Artes Performativas de uma maneira geral.

Biografia de Klee

Paul Klee nasceu a 18 de Dezembro de 1879, perto de Berna, em Suíça. O pai era alemão e depois de ter frequentado a Escola do Magistério Primário na Francónia Central, estudou, Canto, Piano, Órgão e Violino no Conservatório de Estugarda, onde conheceu Ida Frick (1855-­‐1921), natural de Basileia, que ali estudava Canto. Casaram em 1875.
Hans ensinou Música até 1931, no Conservatório Nacional de Berna, em Hofwil. Em 1876, nasceu a sua filha Mathilde e posteriormente Paul.
Paul Klee desde bem cedo que revelou um talento imenso para o violino; tocava na Orquestra Municipal ainda antes de terminar a Escola Secundária de Literatura.
Em 1898 viajou para Munique, após ter terminado o liceu, de modo a estudar Pintura. Em 1901 e 1902, esteve em Itália. Desde 1902 a 1906, prosseguiu os seus estudos de arte em Berna. Em 1905, efectuou a sua primeira viagem a Paris. No ano seguinte, casou-­‐se com a pianista Lily Stumpf, tendo-­‐se estabelecido nessa mesma cidade. Lily sustentou a casa durante dez anos, dando aulas de piano. Foi nesta altura que Klee descobriu a obra de Van Gogh, e a de Cézanne, o “mestre por excelência”.
Em 1911, travou conhecimento com Kubin, Jean Arp e alguns artistas da escola Der Blaue Reiter, Kandinsky, Marc e Macke, e desenvolveu uma paixão pelos quadros de Delaunay. Realizou uma segunda viagem a Paris e traduziu o texto de Delaunay intitulado “Luz”. Teve ainda a oportunidade de visitar as galerias francesas de vanguarda.
No inicio de 1914, Klee fez uma viagem de três semanas à Tunísia, juntamente com os pintores Moillet e Macke. Esta viagem foi um marco na obra de Klee, pois serviu como ponto de viragem, ficando mobilizado em 1916 e 1918.
A sua reputação consolidou-­‐se após a guerra. Em 1920 foi nomeado professor da Bauhaus, que tinha sido fundada por Walter Gropius em Weimar, em 1919. Em 1925, a Bauhaus foi transferida para Dessau. No mesmo ano, Klee participou na primeira Exposição Surrealista em Paris, e a sua primeira exposição individual realizou-­‐se na Galeria Vavin-­‐Raspail.
Em 1929, viajou até ao Egipto. Em 1931, abandonou a Bauhaus para ensinar na Academia de Belas-­‐Artes de Dusseldorf. Foi demitido dois anos depois devido à pressão nazi.
Este acontecimento afectou-­‐o consideravelmente, e Klee refugiou-­‐se em Berna, na sua cidade Natal. No entanto, a sua saúde descaiu rapidamente.
Em 1935, foi atingido pela esclodermia1. Em 1937, Braque e Picasso deslocaram-­‐se a Berna para o visitar. As obras de Klee que constavam de coleções publicas alemãs foram confiscadas, e dezassete delas fizeram parte da exposição “Arte degenerada” que se realizou em Munique.
Em 1940, a Kunsthaus de Zurique montou uma exposição das obras de Klee realizadas após 1935. No dia 29 de Junho de 1940, Paul Klee faleceu, vítima de uma paralisia do coração. Foi enterrado no cemitério de Schlosshalden, em Berna.


Herança de Klee – Da Música à Pintura

Desde bem cedo que demonstrou um gosto enorme pela música, talvez incutido pelos pais. O pai, Hans Klee, leccionava canto e a mãe leccionava cursos no Conservatório de Stuttgart. Com toda esta envolvência na música, Klee começou desde pequeno a lidar com a música, mas o seu gosto era mesmo pelas «artes degeneradas», nomeadamente a Pintura e a Literatura.
A avó Frick foi com quem lhe ensinou a fazer os primeiros traços com o lápis e com o pincel. Desde logo a avó Frick percebeu que o seu neto tinha enorme aptidão para o desenho, então apostou no neto, a fim dele aprender algo mais acerca desta área tão peculiar para o pequeno Klee. Os pais sempre revelaram uma oposição perante o caminho escolhido por Klee (Pintura), pois ambos queriam que fosse músico, tal como eles próprios. Paul ficou sempre de pé atrás pela Música, pois “estava convencido de que a música já tinha atingido o apogeu; os compositores modernos não o interessavam.”2; assim, foi para Munique para uma Escola de Belas-­‐Artes, de modo a aperfeiçoar a sua técnica de Pintura, e foi aí que, começou a relacionar a sua Pintura com a Música que lhe foi incutida, desde criança.


Fuga em Vermelho

O quadro Fuga em Vermelho, representa bastante bem a ideia da composição musical inserida na Pintura. A multiplicação de formas e cores emergem do fundo preto também nuançado, bem como a clareza formal é digna da frase musical de uma fuga.

«A decadência que caracterizava a história da criação musical não me incitava a compor.»4

A sua maior pertinência era conjugar a música com a pintura, pois eram as suas grandes paixões. Foi então que, começou a sua carreira aliando as duas vertentes. Aos 23 anos, Paul afirmou que «“A terceira estrada consiste no aprendizado de um modesto e ignorante autodidata, um minúsculo eu sozinho.”, assinando assim um grande poder de autonomia espiritual, caminho próprio e inconfundível que se traçou no labirinto da arte moderna.»
Enquanto estudante de Academia em Munique, Klee nunca ficou muito agradado com a pintura académica, foi em Van Gogh que encontrou a sua verdadeira orientação. Abandonando pouco a pouco a fidelidade de representação dos objectos, encontra a deformação perfeita da linha nalguns quadros de Van Gogh.

A Pincelada de Klee

“Concebo um motivo muito diminuto e tento representá-­‐lo de forma sumária, naturalmente por meio de “estágios”, mas de modo prático, isto é, armado de um lápis. Partindo desta ação concreta, resulta algo bem melhor, dessa série de pequenos atos repetidos, que de um élan poético sem forma e sem figuração... Todas as coisas pequeninas e justapostas umas às outras, estreitamente, formam um conjunto que em si constitui uma actividade real. Aprendo retomando desde o principio, começo a formar alguma coisa como se eu ignorasse tudo sobre pintura. Porque descobri uma propriedade incontestada até agora, um género especial da representação em três dimensões sobre a superfície”5. Estas palavras de Klee caracterizam, sucintamente, o homem e o artista, tal como ele gostaria de ser visto, e pode dizer-­‐se que elas são como que o seu manifesto.
Tentando sempre esforçar-­‐se por transmitir uma ideia favorável de si próprio, Klee afirmava variadas vezes que a sua Pintura não era para admirar, mas sim para vivenciar.

«Do ponto à linha, da cor à modulação tonal, ele combinou respeito à natureza e invenção de uma linguagem abstracta.»6

As viagens que fez revelaram algumas divergências ao nível compositivo, devido às influencias espaciais. Quando viajou ao Egipto, Klee retrata paisagens bastante geometrizadas e com cores bastante gritantes. 

Estrada Principal e Estradas Secundárias

No quadro Estrada Principal e Estradas Secundárias, podemos observar uma visão bastante abstracta da paisagem egípcia. Ainda assim, Klee tenta manter alguns laços estruturais em conformidade com a realidade do espaço.


Uma perspectiva diferente

Sem renegar o naturalismo da arte chamada clássica ou figurativa, que provocou a rebelião abstracta de Kandinsky, sem tão pouco reduzir a pintura ao neoplasticismo de Mondrian, Klee vê na Arte uma constante mutação, nervosa e sensível, angustiada e transcendente como o próprio destino do homem.
«Neste lado de cá, não sou nada de palpável, pois vivo tanto com os mortos como com aqueles que ainda não nasceram, um pouco próximo da criação do que é habitual, embora ainda não suficientemente perto. Será que emana calor de mim? Frio? É impossível falar disto sem paixão. Quando estou mais longe é que me sinto mais piedoso. Por vezes, vejo-­‐me, do lado de cá, um pouco malicioso. Isto são aspectos de um conjunto. Os padres não são suficientemente piedosos para o ver. E estes sábios ficam um pouco escandalizados.»7, neste excerto conclui-­‐se que Klee era mesmo um pintor abstracionista, pois a maneira de encarar o mundo é bastante sutil.
A meu ver, o pintor nunca encontrou uma estabilidade emocional durante a vida, tentando sempre impressionar o observador quanto à sua perspectiva de vivencias e factos. Através da Pintura, queria mostrar o seu modo de ver o mundo, o modo como encarava a vida.
O quadro intitulado Anoitece, vem demonstrar a sua “revolta mundana”. Entre áreas azuis e cinzentas, apresentam-­‐se formas suspensas num labirinto minucioso que reproduz o mundo em convulsão. Neste exemplo, Klee tenta representar a sua visão de código simbólico e inegavelmente trágico da existência humana.

O pensamento criativo de Klee

O pensamento criativo de Klee é bastante interessante, sendo o primeiro pintor moderno a atribuir um valor criativo à Arte realizada por doentes mentais. “«Hoje em dia, no que diz respeito à reforma da Arte, as obras realizadas por doentes mentais devem ser consideradas como mais importantes do que todas as galerias do mundo»”, desta maneira, Klee tenta mostrar junto da sociedade, que as obras feitas por doentes mentais não são alucinações, mas sim matéria importante para compreender a vida de um individuo com problemas mentais. Desta maneira, tenta também levantar o véu, para que os críticos de arte não avaliem os quadros mediante o que está figurativamente representado, mas pelo que está incutido no mesmo, conceptualmente.

Villa R

No quadro intitulado Villa R, Klee faz um aproveitamento das letras do alfabeto que é uma inovação cubista (por vezes utilizado o recorte e a colagem), que transporta o seu mundo poético: casa de brinquedos, paisagem de sonho, céu enluarado. Nesta geometrização formal, o pintor viaja a um universo infantil para demonstrar a importância do papel das crianças. “«(...) As crianças também têm capacidades artísticas, e há sabedoria neste facto! Quanto mais indefesas forem, mais instrutivos serão os exemplos que elas nos facultam; e têm de ser conservadas longe da corrupção desde tenra idade. As obras de doentes mentais fornecem-­‐nos fenómenos semelhantes; nem o comportamento infantil nem a loucura são palavras insultuosas neste contexto como costumam ser. (...) Se as correntes da tradição passada estão, tal como acredito, a perder-­‐se realmente, e os ditos pioneiros resolutos (cavalheiros liberais) exibem rostos aparentemente saudáveis e frescos, mas na verdade, sob a perspectiva histórica a longo prazo, são a própria encarnação da exaustão, então é chegado um grande momento, e saúdo aqueles que se esforçam por concretizar a reforma iminente.»”9, conforme a citação de Paul, conclui-­‐se que o que ele quer transmitir é que, não é o rosto aparentemente saudável e fresco que é arte, muito pelo contrário, isso é enaltecer um objecto podre, despojado de matéria, fútil. Klee transmite a ideia de uma arte que tem de ser vista com base num conceito, numa condição. As crianças, por serem inocentes, são objecto de estudo, representam o mundo que vêm de modo a proporcionar a sua própria visão – espírito naif10; o mesmo se passa com os doentes mentais, que por estarem numa condição diferente dos restantes indivíduos racionais, estão num patamar que merece destaque, o qual é visto de uma maneira, mais irracional e irreverente. O pintor enquadra-­‐se nestas duas condições (crianças e doentes mentais), pois afirma que é neles que está a esperança da Arte moderna.

Conclusão

Não se integrou em nenhuma das principais correntes da Arte do século XX, mas deu um contributo imenso para a compreensão da Arte. Para além de ser um dos pais fundadores da pintura contemporânea, Klee é um nome sonante quando pensamos em inovação e progresso.
Ao longo da sua vida, renovou a sua técnica numa busca constante de novas fontes de inspiração, mesmo não estando inserido em nenhum estilo em particular. O poder misterioso da sua Arte manifesta-­‐se nas suas mais modestas aguarelas ou no mais improvisado esboço, resultando num jogo dinâmico de matizes e formas inesperadas, acidentais. A sua originalidade assenta na busca da realidade – o derradeiro enigma.


A Esclerodermia ou Esclerose Sistémica é uma doença reumática crónica caracterizada por alterações vasculares, produção de anticorpos dirigidos contra partes do próprios corpo (auto-­‐ anticorpos) e aumento da produção de tecido fibroso quer na pele, quer em órgãos internos do corpo.
Citado de Diários de Paul Klee.
Pertença da Coleção Félix Klee, Berna.

Citado segundo Werckmeister 1981, pág. 173, nota 39.
AAVV. Génios da Pintura – Klee. São Paulo: Abril Cultural, 1968, pág. 4.

AAVV. Génios da Pintura – Klee. São Paulo: Abril Cultural, 1968, pág. 3.
LEOPOLD Zahn: Paul Klee. Leben, Werk, Geist, Potsdam 1920, pág. 5.
FERRIER, Jean-­‐Louis. Paul Klee. 1a edição. Lisboa: Centralivros, Agosto 2001, pág.57.
9 FERRIER, Jean-­‐Louis. Paul Klee. 1a edição. Lisboa: Centralivros, Agosto 2001, pág.57.
10 certo tipo de pintura, escultura espontânea e autodidata, desvinculada de escolas convencionais, que resulta em composições primitivas, de fácil compreensão.

Bibliografia

AAVV. Génios da Pintura – Klee. São Paulo: Abril Cultural, 1968.

FERRIER, Jean-­‐Louis. Paul Klee. 1a edição. Lisboa: Centralivros, Agosto 2001. 


NAUBERT­‐RISER, Constance. Klee. Lisboa: Circulo de Leitores, 1994. PARTSCH, Susanna. Klee. Colónia: Taschen, 2004. 

domingo, 27 de maio de 2012

Euforia


André Lopes Cardoso, Euforia, 2007
Dim. 50X60, Óleo sobre tela

O tema central da pintura é o Nascimento. Apesar de ter sido pintada na adolescência, tem uma temática que não é frequentemente abordada pelos jovens, considerada até de tabu. A escolha da temática foi difícil, queria transmitir alteração, então surgiu a ideia de Fertilização, Mudança. A escolha cromática foi também uma tarefa bastante difícil, mas deixei-me influenciar pela ingenuidade e ousei em aplicar cores quentes  e frias, transmitindo uma explosão de várias emoções, o que remete imediatamente para a fecundação - orgasmo.

Esta tela veio espalhar a polémica na aula de Desenho, pois ninguém arriscaria num tema arrojado. Parece que não foi há muito tempo, mas realmente nota-se uma grande diferente das crianças dos finais dos Anos 80 para as dos Anos 2000.

Hoje não causaria o impacto que causou na altura.