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quinta-feira, 13 de abril de 2017

Calças de Cós Subido

O Traje Português é um universo bastante rico e diversificado, tal qual os nossos usos e costumes que variam imenso de região para região. Como bem sabemos, o Traje Português foi pensado de acordo com o ofício de cada um, facilitando assim a execução das diversas actividades.
Falo-vos hoje das Calças de Cós-subido ou, como são vulgarmente apelidadas “calças até aos olhos”. Se repararmos no Traje Português de Equitação, as calças também são de cós-subido com abotoamento frontal, de maneira a apoiar os rins quando se monta a cavalo. No Traje Português, tudo tem sentido, e no caso das calças de homem este pormenor de apoiar os rins é nuclear, porém eram normalmente confeccionadas em fazenda ou algodão forte, de modo a aguentarem a rigidez do trabalho do campo; sabe-se que este tipo de vestimenta era muito utilizada pelos Lavradores e, particularmente no Ribatejo, a vida destes homens era passada a cavalo, quer desbastando cavalos, quer ferrando, cultivando, apartando gado.
Algumas destas actividades são mencionadas por João Chora, no Fado “Homem do Ribatejo”:

O homem do Ribatejo tem de sobejo coisas do céu
A chuva que vem do cimo, o Sol a pino e a mão de Deus
Terra que em ondas de mágoa, faz do campino um valente
O Tejo dá-nos a água que quer abraçar a gente

Pega um toiro em Alcochete
Vai cantar a Vila Franca
Monta um baio em Salvaterra de calção e meia branca
Vai à feira a Santarém
Há fandango em Almeirim
Nas adegas do Cartaxo bebe um sonho até ao fim

Irmão da terra e do gado, cantor de fado, homem de fé
Traz a lezíria no peito, não perde o jeito de ser quem é
Cresceu nas crinas do Tejo, sabe brandir quando quer
Aguilhão do desejo nos braços d'uma mulher

À Senhora do Castelo, em Coruche, a oração
E na Feira do Cavalo da Golegã, animação
Já passou pela Chamusca, entrou numa tasquinha
Vai também a Benavente pela festa da sardinha

Pega um toiro em Alcochete
Vai cantar a Vila Franca
Monta um baio em Salvaterra de calção e meia branca
Vai à feira a Santarém
Há fandango em Almeirim
Nas adegas do Cartaxo bebe um sonho até ao fim

Portugal é um país cheio de apontamentos de requinte, mas ao mesmo tempo de simplicidade e as questões de Vestuário estão todas muito bem pensadas, cumprindo sempre uma necessidade.


Calças de cós-subido utilizadas na Tenta de Novilhos

Calças de cós-subido utilizadas para montar a cavalo

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Salão do Cavalo, Vila Franca de Xira

Hoje recupero um texto sobre o Salão do Cavalo de Vila Franca de Xira.
“O Salão do Cavalo em Vila Franca de Xira era um certame dedicado ao cavalo, principalmente Lusitano e à Companhia das Lezírias. Sabe-se que a região de Vila Franca tem fortes ligações ao campo, à Festa Brava e, por isso, ao cavalo. O certame foi iniciado no final da década de 80, particularmente em 1989, tendo sido fortemente apoiado pelo Eng. Sommer d'Andrade, o Dr. Torcato de Freitas, José Assis Pereira Palha, Major Simões Pereira, Coronel Cabedo entre outros elementos que faziam parte da comissão organizadora. Acontecia tipicamente no primeiro fim-de-semana do mês de Maio, no local que hoje conhecemos como Campo do Cevadeiro, junto à entrada sul da cidade. Era nesse campo que vinham de todo o país cavaleiros, marialvas, e entusiastas curiosos espreitar os místicos de quatro patas. Era uma regressão ao passado com pompa e circunstância, desde os trajes típicos aos passos equestres que se vislumbravam às pargas, não só no local da feira, mas por toda a cidade.
Não só era um desfile de cultura, havia também um conjunto de provas equestres que, nalguns casos, pontuavam para o campeonato nacional. Modalidades como o Horseball, Equitação de Trabalho, Condução de cabrestos, Picaria à vara larga, Concurso do Poldro mamão, eram alguns dos momentos do certame. Normalmente acontecia também um show equestre protagonizado pelo Centro Equestre da Lezíria Grande,  se a memória não me trai.
Paralelamente a este conjunto de actividades, existia também o comércio de cavalos.”

In Concept Board por André Lopes Cardoso, publicado em 18 de Janeiro de 2015

Após várias conversas com amigos e entusiastas de cavalos relativamente ao texto acima sobre o cavalo e o Salão de Cavalo de Vila Franca, pensei em fazer um apanhado sobre o dito Salão de Primavera.
Como sabemos, Vila Franca é considerada a sevilha portuguesa, isto porque está envolvida pelas Lezírias, mas porque vive a afición da Festa Brava. Este contexto permite perceber que quem aqui vive, vive as coisas da terra e dos animais de uma maneira muito particular, particularmente as tradições e os costumes tipicamente ribatejanos. Foi desta cidade que saíram os maiores toureiros e cavaleiros de todos os tempos, porque existe de facto esta ligação sanguínea nas gentes da terra.

O Salão do Cavalo termina por volta de 2006/2010, numa tentativa de acabarem com as tradições desta cidade. Foi lentamente movido para as Lezírias, atraindo menos visitantes, justificando assim o seu terminus. 
Fiz um levantamento de pontos positivos, outros a melhor, de maneira a que se perceba mais facilmente as mais-valias que poderia trazer à cidade.

Apresento alguns pontos positivos:
• Manter viva a tradição ribatejana;
• Manter viva a tradição equestre portuguesa;
• Revitalizar a cidade;
• Movimentação e fluxo de comércio, sejam restaurantes, hotéis, pensões.

Pontos a melhorar:
• Manter as raízes do certame tradicional, mas fazer ligeiras actualizações, como por exemplo, trazer a festa novamente para a cidade;
• Promover o cavalo na região, para tal, instalar um picadeiro/hipódromo em Vila Franca, de maneira a que os cavaleiros da região tenham um local onde possam treinar os seus equídeos gratuitamente, tal como acontece na Golegã (manga);
• Criar parcerias com Escolas e Companhias Agrícolas para patrocinarem o certame;
• Criar estruturas para que a festa não se desvaneça no tempo;
• Apelar a que as tertúlias tauromáquicas não só colaborem na Festa do Colete Encarnado, mas que apoiem e disseminem a Festa dos Cavalos.

Vila Franca de Xira está situada numa zona muito acessível, pois está próxima de Lisboa, da capital do Cavalo (Golegã, para os mais distraídos) mas também do campo. Os acessos são óptimos, desde o comboio, ao Auto-Estrada, a Recta do Cabo para quem vem de Sul, enfim é um núcleo óptimo de encontro, pois é central.


Disposição da Cidade e Hipótese de Sítios estratégicos para Salão de Cavalo, Vila Franca de Xira

O Largo da Câmara, por ser o da cidade e, porque tradicionalmente é o local onde se entregam prémios e condecorações, era importante ser aqui o local solene da Feira, onde aconteça a abertura do Certame, entregas de prémios, entre outros. 
  Relativamente ao ponto Entrega de prémios, deveriam ser criados e considerados vários Prémios como: Melhor Poldro mamão; Melhor traje à portuguesa, entre outros.
O Campo do Cevadeiro seria o coração da Feira, como já era no antigo Salão. No entanto, deveria ser repensado o ordenamento do espaço. O pavilhão deveria servir stands de venda de equipamento, vestuário, e outros artigos relacionados com cavalos, como boxes, atrelados. Já no exterior, poder-se-ia cumprir a tradição e utilizar o espaço para actividades como Condução de gado e cabrestos, Tradicionais jogos, Campeonato de Horseball.
Criar parcerias com as Coudelarias da região, de maneira a virem apresentar os seus produtos. Os Centros Hípicos - O Centro Equestre da Lezíria Grande e o Mestre Luis Valença, o Morgado Lusitano, o Centro Equestre das Cachoeiras, a Quinta da Lezíria, a Quinta da Bela Vista - também deveriam colaborar, através de baptismos equestres, ou até shows no caso do Mestre Luís Valença e do Morgado Lusitano.
Dotar a cidade de pontos estratégicos para colocação de boxes ou aluguer de boxes.
Foi no Cabo das Lezírias que terminou o Salão do Cavalo mas não podemos esquecer das vantagens que o espaço poderia trazer ao evento, desde a sua localização, longe da confusão e do barulho aos próprios equipamentos que lá constam, como: Tentadeiro, Dormitório, Casas agrícolas. Neste local era interessante colocar provas de C.C.E. – Concurso Completo de Equitação – pois tem imenso espaço para este tipo de provas. Poder-se-ia também abrir um Restaurante, ainda que de cariz temporário, servisse refeições durante a Feira.
A Praça de Touros Palha Blanco e o Museu Etnográfico nela inserido seriam outro ponto forte do certame. Dar a conhecer a Palha Blanco e a sua história desde a edificação em 1901, até aos nossos dias, lembrando que antes desta praça existiram outras duas, sendo que a anterior foi vítima de incêndio. Revitalização deste recurso, abertura do Museu Etnográfico que muito agradará este público. Outro ponto interessante seria a apresentação de exposições de pintura, como por exemplo do , José Serrão de Faria. Aproveitar também o certame para fazer um show de Recortadores.
A Companhia das Lezírias é a maior exploração agro-pecuária e florestal existente em Portugal, compreendendo a Lezíria de Vila Franca de Xira, a Charneca do Infantado, o Catapereiro e os Pauis (Magos, Belmonte e Lavouras). A Coudelaria da Companhia das Lezírias, dedica-se actualmente, em exclusivo, à criação do cavalo Puro-Sangue Lusitano, cujos produtos macho recria e aos três anos desbasta e comercializa, no mercado interno e externo. A éguada, com um efectivo de 30 fêmeas de ventre, pasta próximo de Samora Correia - Benavente, na Charneca de Braço de Prata e Vale do Roubão.
Não esquecer as raízes e por isso fazer uma Largada de Touros no Largo da Praça de Touros Palha Blanco, de maneira a atrair um público diversificado.

As nossas tradições são a nossa identidade, são elas que nos conferem o carácter distinto dos outros povos, não os deixemos perecer.


André Lopes Cardoso



quinta-feira, 17 de março de 2016

Lusitânia e o epígono cavalar

Lusitania

Foi a denominação atribuída ao território Oeste da Península Ibérica, onde viviam os povos lusitanos, desde o Neolítico. Após a conquista romana passou a designar-se Hispânia, cuja capital era Emerita Augusta, actual Mérida.

Relativamente às áreas de território, fazia parte o actual território português a sul do rio Douro, mais o território pertencente à Estremadura espanhola e parte da província de Salamanca. Esta região é uma das possíveis origens ancestrais de Portugal, com foco em Viriato e no movimento que adveio deste.


Lusitânia durante o período do Império Romano

Pensa-se que este território não foi atingido pelo último período glaciar. Assim, subsistiu um grupo equino que terá evoluído, tendo permitido a sua domesticação e posterior equitação superior. Este cavalo sobrevivente, segundo se sabe, viajou para Oriente ao Norte de África e Ásia Menor, até chegar à China.

O próprio Cavalo Lusitano como é conhecido, foi observado há muitos anos por estas paragens e é descendente deste Cavalo Ibérico, antepassado de todos os cavalos que estiveram na base da equitação em todo o mundo. Por ser um território isolado, aqui sobreviveu e evoluiu desde há aproximadamente quinze mil anos, livre de influências até há bem pouco tempo.




Por variadas razões e critérios de selecção, nos últimos trezentos anos aconteceu um fenómeno que dividiu o efectivo da Andaluzia e de Portugal. Estes efectivos afastaram-se, estando o efectivo português mais próximo daquilo que era o cavalo ibérico dito original, antecessor de ambos.

Durante os séculos XIX e XX, o cavalo vem a sofrer diversas intercepções de sangues estranhos, de maneira a conseguir-se uma maior força de tracção. São aproximadamente duzentos anos, mas os efeitos foram nefastos para o equino, conferindo-lhe maior dimensão e peso, retirando-lhe a ligeireza que tanto o caracterizava. Relativamente à “cabeça”, esta também se deteriorou, perdendo-se a “finura”, ardência, vibração.

Anos mais tarde, percebeu-se que os cruzamentos efectuados fizeram com que houvesse um afastamento à raça original, tendo-se perdido as suas características arnazes. Com trabalho, perseverança e inteligência, os criadores conseguiram, com base numa genética fortíssima, produzir cavalos de maior dimensão e com melhores andamentos, capazes de praticar quase todas as modalidades do desporto equestre moderno, recuperando assim as suas características originais, aliás reforçando-as.

Durante os anos 70, particularmente entre 1974 e 1975, Portugal passou por um período bastante conturbado quer ao nível económico, quer politico e social, que acabou por se instalar na região do Ribatejo e do Alentejo, pondo em risco a sobrevivência da raça Lusitana, inspirado numa reforma agrária ignorante advinda de um poder politico desadequado. No entanto, nem tudo foi mau, os interessados nesta raça uniram-se e lutaram contra estas políticas nefastas, evitando a perda das suas propriedades genéticas ou até a sua extinção.
A Revolução passou, mas os ideais e o acreditar no produto nacional fez com que o grupo de principais criadores do Cavalo, presidido por Fernando d’Andrade, definisse com muito rigor o padrão da raça, base de partida fundamental para a melhoria na selecção. Houve, de facto uma redefinição de prioridades, de maneira a colocar o Cavalo noutro patamar, seleccionando-o.

Agradece-se à família Veiga que, de uma maneira persistente, acreditou no cavalo Lusitano e resistiu durante gerações a cruzamentos pouco sérios. No entanto, os génes da raça sobreviveram em todas as Coudelaria, pois a raça andava tipo "mascarada", as caracteristicas originais estavam lá, apenas apareciam "abafadas", devido aos cruzamentos com outros cavalos mais pesados, como foi explicado acima.

Actualmente já existe uma exigência relativamente à suavariabilidade genética. 

É fulcral manter-se as quatro grandes familias dentro do efectivo actual: 


Estas coudelarias são a base da raça Lusitana que hoje conhecemos e que de facto se aproxima, cada vez mais, da original. Sabe-se que a História e os conhecimentos de equitação foram pilares fundamentais na recuperação da raça, como é espectável, daí estarem incluídas as Coudelarias mais afamadas, pois também elas posuíam os criadores de cavalos mais conehcedores da matéria.

Recentemente reuniu-se os jurados portugueses da raça Lusitana, passados cerca de trinta anos da redação do texto que prevê a definição da padronização da raça, e nada foi necessario corrigir, o que a mim me sugere que, o desenvolvimento da raça está em boas mãos e em bom caminho.

Sabe-se que o Cavalo Lusitano está a ser cada vez mais utilizado nas mais diversas áreas e em todo o mundo, como seja:

  • Competição
  • Toureio
  • Arte Equestre

De facto o universo cavalar reune imensa gente, desde curiosos, a entendidos, diletantes e outros tantos, mas o interesse e o encanto pelo cavalo manfesta-se imenso nas artes. 

Segundo Serrão de Faria (Azinhaga, Golegã 1937), "pinto o cavalo lusitano, por nenhum outro animal transmitir sentimentos tão nobres e uma tão grande sensação de liberdade". José Francisco Quelhas Serrão de Faria é conhecido por "pintor do cavalo lusitano". A sua Obra retrata magistralmente sobre o papel, sobre a tela, as “linhas”, dos magníficos ‘filhos do vento’ da Lusitânia.  É com fina sensibilidade, profundo conhecimento e singular arte que representa com os seus pincéis, também os campinos e as suas montadas na sua faina diária, o gado bravo, e a paisagem da lezíria e do espargal. A sua oficina de criação insere-se no Solar dos Serrão, casa de família do século XVI, na Azinhaga. Frequentou cursos de gravura, litografia, serigrafia e xilogravura na Cooperativa de Gravadores Portugueses. Como caudeleiro, foi ainda Presidente do Stud-Book Lusitano e autor de publicações sobre o Cavalo, tais como “Caballus”, “Ginete Ibérico” e o “ Solar do Cavalo”. Autor ainda de outros livros como, “Dois Dedos de Conversa”, “Futebol, Iluminuras e Textos Consagrados”, “ Vales Traçados”, “Lisboa do Rio para as Colinas” e “Olivença”, foi ainda colaborador do jornal “ A Capital” e de vários outros jornais e revistas. Está representado em várias colecções particulares, nacionais e estrangeiras.


Eguada de Alter Real,Serrão de Faria, aguarela, 2011

Jorge José Gomes de Carvalho Alexandre nasceu em Vila Franca de Xira em 1956. Pelas mãos, mas principalmente pela sensibilidade dos Mestres José Noel Perdigão, Júlio Goes, Caldeira Martins e outros que a memória não esquece, saboreia a ternura da aguarela.

É o autor dos retractos dos matadores Vilafranquenses expostos no Café Central, da colecção “ Cenas Taurinas” patentes no pátio Galache, da obra “ Campinagem I” exposta no Salão Nobre da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e da colecção “ Rdol” patente na Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira. Em 2008 é lançada pela empresa Adine, uma colecção de imanes reproduzindo 5 obras suas e  é responsável pela decoração da maternidade do Hospital Reynaldo dos Santos em Vila Franca de Xira.

Em 1999 recebeu a distinção de mérito cultural da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira.
Certificado pelo Centro de Formação contínua da Universidade do Minho, presta actualmente formação na área da expressão plástica.
Iniciou a sua actividade profissional como cartoonista na revista “ O Século Ilustrado”, nos anos 70 e trabalhou na área da publicidade nas duas décadas seguintes. Expõe desde a década de 80 em Portugal e no estrangeiro, contando no seu currículo com a realização de dezenas de exposições individuais e colectivas e está representado em colecções particulares em Portugal, Espanha, França, Itália, Suécia, Dinamarca, Brasil, Índia, Japão e Noruega.
Detentor de vários prémios na área da pintura, entre os quais, o 1º. E 3º. Prémios na 2ª. Bienal de Benavente, o 1º. Prémio Cidade de Tavira e o 2º. Prémio da Vila de Salvaterra de Magos, o Artista está mencionado  em Arte 98 de F. Infante do Carmo, no anuário Europeu de Arte 2000 e na publicação em Portugal 2001 e no vídeo “ Aguarela-Arte Maior” de Afonso de Almeida Brandão.
É, desde 2002, Presidente da Direcção do GART-Grupo de Artistas e Amigos da Arte, Associação que tem divulgado a Arte enquanto sensibilidade de cada um, num todo, por todo o Mundo.
Com Vítor Casquinha concebe pensamentos como “da Aurora ao Ocaso a Teimosia de Resistir”, o que dá origem ao monumento ao trabalhador rural em Arruda dos Vinhos que cria e executa solicitando a ajuda do Mestre Júlio Carmo santos.
Autor de vários cartazes, sendo em 2008 convidado a criar todos os cartazes da temporada taurina na Praça Palha Blanco em Vila Franca de Xira.


Jorge Alexandre, aguarela, 2015
Beatrice Bulteau nasceu em Sancerre, França, em 1959. Em 1980 instala-se em Portugal e inicia uma nova expressão em aquarelas. Escolhe o cavalo como suporte da sua pintura, desenvolve e aprofunda o seu estudo anatómico, tornando-se uma exímia representante do seu movimento. O Cavalo Lusitano é indubitavelmente um dos mais preciosos tesouros vivos do património cultural português. Bulteau tem-lhe um carinho especial e retracta-o de uma forma única e apaixonada, revelando aos nossos olhos toda a sua beleza , força e coragem, aos quais não nos é possível ficar indiferentes.
Segundo Fernando Tavares Rodrigues in Os Cavalos Mágicos do Bulle, “são estes cavalos que, há mais de trinta anos fascinam Bulteau e nos conduzem a outros espaços onde o sonho e a beleza dão as mãos silenciosas. Os seus cavalos são livres. Viajam em vasos de barro e folhas de papel e relincham e galopam quando olhamos para eles. Não há rigor fotográfico. Há encanto, sensualidade mesmo. À flor da pele”.
Uma inevitável cumplicidade com os materiais e as cores. Os movimentos quase a sair do papel, a força a ensaiar uma coreografia que os vasos tentam, em vão, conter para nós que, incessantemente os descobrimos e repetidamente nos rendemos a essa beleza que matéria alguma pode aprisionar. Em todas as obras de Beatrice Bulteau há um convite ao sonho, que sendo dela, também pode ser nosso. Ela faz-nos sentir, olhar, cheirar. Apetece-nos tocar, montar, domar. Como se todos os cavalos fossem Pégaso e, nós, apenas velhos deuses com pena de ficar….
Beatrice viajou pelo mundo e levou com ela o Cavalo Lusitano sempre representado nas suas exposições. Desde 1984 o seu trabalho tem sido apresentado em 25 estados dos EUA, no Japão, no Canadá, na Europa e recentemente no Oriente e Oriente Médio. Mais recentemente passando por São Paulo na Galeria Romero Britto e Museu Equuspolis, Golegã, Portugal. 


Lusitanos, Beatrice Bulteau, aguarela

Também na Poesia é rei, segundo Alexandre O'Neill In Forte mas fraco (1971):

Nada na mão / algo na v'rilha
remancho as noites / e troto os dias
entre tabaco / viris bebidas
fraco mas forte / de muitas vidas
(que eu já dormi / co'as duas mães
e as duas filhas / que vão à missa
com três mantilhas)

Nada na mão / algo na v'rilha
sofro comigo / luta intestina
(ao bem ao mal / a mesma alpista)
bebo contigo / cerveja uísqui
p'ra que se veja / mais rubra a crista

Nada na mão / algo na v'rilha
encontro a morte / no meio da vida
morte bonita / nada aflita
(ou é da minha / tão fraca vista?)
e tenho sorte

Nada na mão / algo na v'rilha
invisto contra / o zero puro
da minha vida

e duro, duro!

E continuará a inspirar-nos nas mais diversas matérias...
André Lopes Cardoso

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ferrador

É o profissional que cuida e trata dos membros dos cavalos, nomeadamente dos cascos.
Coloca ferraduras, objecto de ferro que é acoplado ao membro do cavalo, protejendo-lhe o casco; ou simplesmente limpa-lhe o casco e apara.





É uma profissão que teve um enorme decréscimo inerente à utilização do cavalo.

André Lopes Cardoso

sábado, 16 de janeiro de 2016

Feira do Cavalo

Os dias mais pequenos, os serões maiores, o frio aperta e os abafos são fortes ou abafadinhos. O fumo e o cheiro a castanha assada enchem as estreitas ruas da Golegã, sente-se uma calma estranha à medida que vamos entrando na vila, rua após rua, ao mesmo tempo um nervosismo inquietante. A Feira Nacional do Cavalo é anunciada por uma série de factores inerentes também eles à chegada do Inverno. O espírito da Feira sente-se de longe, o Cavalo é rei e é ele que nos faz ir todos os anos àquela vila, onde é amado e acarinhado; é como que uma regressão a épocas anteriores, onde se respira e exalta o cavalo, desde a sua génese, companheiro de aventuras, fiel e trabalhador, de sangue quente e nervoso, é de facto um misto de emoções.

A sociedade goleganense veste-se a preceito e prepara as suas montadas à com arreios e sela <à portuguesa>, como manda a tradição, revelando assim o seu espírito tradicional e marialva. Como se sabe, a indumentária sempre foi uma preocupação para o Homem; desde os primórdios da humanidade que o Homem se tentou cobrir ou vestir de alguma maneira, quer seja através de peles de animais, quer seja através de tecidos ou panejamentos. A principal função da indumentária é de facto a de protecção, principalmente contra o frio. Naturalmente todo este conceito de vestuário evoluiu conforme as várias épocas, mas o Traje Português de Equitação também; este surge numa tentativa de conciliar o trabalho de campo (por questões práticas), com a questão de montar a cavalo (elegante e maneável), mas o Doutor Gorjão Clara é capaz de explicar melhor o traje, visto ser investigador neste ramo.


Sabe-se que, o traje português de equitação foi sofrendo algumas adaptações ao longo do tempo, mas a sua génese é semelhante à indumentária utilizada em toda a Europa, após a Revolução Francesa, principalmente a Jaqueta, o Colete e as Calças. Repare-se no caso das províncias, nalgumas delas, montar a cavalo não fazia parte das actividades quotidianas/profissionais da população, no entanto o traje utilizado era semelhante, com alguns ajustes. Podemos rapidamente percepcionar esta situação num rancho folclórico, onde nos é apresentado um quadro social diversificado, mas maioritariamente rural. A indumentária é semelhante entre os vários grupos étnicos, tanto pela cor, corte, adornos. No caso do traje português de equitação, os pormenores que lhe são inerentes fazem a diferença, distinguindo-o do traje popular. A Jaqueta, Jaleca ou Jabona assemelha-se a uma casaca a que se cortaram as abas, trata-se de um casaco curto aflorado a linha da cintura ou terminando um pouco abaixo desta. A gola de virados é frequentemente enriquecida pela aplicação de veludo ou veludilho na sobre gola, tem dois bolsos verticais de cada lado do peito debruados com veludo, pela fenda do bolso sobressai uma réstia do tecido do forro em vermelho. A jaqueta fecha-se no peito com botões ou alamares que podem ser de prata ou cordão. Actualmente tem-se visto, cada vez mais, jaquetas em que a gola é forrada a pele de raposa. O Colete é abotoado até a altura do diafragma podendo este ter a gola de revirados e ter a abertura a frente em forma de V ou arredondado para se possa ver os folhos da camisa, as costas feitas de tecido mais leve com cordão a ajustar o tronco. A calça do traje a portuguesa é de perna cortada a direito, terminando à altura do tornozelo sem dobra, o cós é alto, atingindo quase a extremidade inferior do esterno, acompanhando os rins, bem ajustado ao corpo, a braguilha de casas e botões está escondida pela pestana, mas a partir da cintura os botões tornam-se visíveis. Chapéu à portuguesa de aba larga, copa côncava com uma virola, também conhecido por "mazantini". A camisa é confeccionada com tecido fino e de boa qualidade em branco, a carcela pode ser enriquecida com pequenos canudos ou de um folho largo franzido feito do próprio tecido da camisa, o peito pode ser adornado de nervuras, ou de pregas pequenas ou largas. As botas ou botins costumam ser curtos, de maneira a poderem ser acopladas as polainas. O salto da bota é de prateleira, suportando a espora de roseta <à portuguesa>.

Na Golegã, por esta altura de Feira, vê-se muitos cavaleiros trajando <à portuguesa>, mantendo e preservando assim as suas tradições vernaculares. Paralelamente a este quadro social, existe a preservação e disseminação da raça portuguesa, o Cavalo Puro Sangue Lusitano (PSL). A Associação Nacional do Turismo Equestre (ANTE) tem feito um trabalho incrível na dinamização do PSL, mas os próprios criadores têm de valorizar o produto nacional, criar mecanismos como programas didácticos, baptismos equestres, nas suas Coudelarias para dar a conhecer o Cavalo, principalmente junto das camadas mais jovens. Por outro lado, durante o certame assistimos também a um universo vasto de provas que revelam, de facto as várias valências do Cavalo: Equitação de Trabalho, Ensino / Dressage, Obstáculos, Atrelagem, TREC, Resistência Equestre. Não está esquecido o lado do espectáculo, fazem-se: Galas Equestres, Exposições de Pintura / Escultura / Artes Plásticas / Desenho.

Um dos momentos altos da Feira é o Cortejo dos Romeiros de São Martinho, tal como cantam “SOMOS ROMEIROS, CAVALEIROS DA TRADIÇÃO, TEMOS A GOLEGÃ NO PEITO, E UM CAVALO NO CORAÇÃO”, que percorrem as ruas da vila e recebem a bênção do Senhor Prior. Paralelamente ao Cortejo dos Romeiros, o Baile da Jaqueta é um evento que também fomenta o Traje Português de Equitação e a tradição goleganense. A Quinta dos Álamos engalana-se para receber os convidados para o Tradicional Baile da Jaqueta, que é antecedido por um Jantar de Gala, servido no Celeiro da Quinta dos Álamos. Este ano de 2015, os homenageados foram a Senhora Dona Isabel de Herédia, D. José de Athayde e a Doutora Assunção Cristas. A Revista Equitação prestou-se também a comemorações, visto completar neste ano de 2015, duas décadas de existência.


A maior parte da Feira é passada na manga como é vulgarmente conhecida ou Arneiro, sendo que é um espaço que pode ser usufruído por qualquer cavaleiro durante o ano. A Câmara Municipal de Golegã disponibiliza o espaço para o efeito; durante o certame existem algumas regras que devem ser cumpridas, como por exemplo, no picadeiro. É neste local que se passam a maioria das provas que decorrem durante a Feira e onde podemos apreciar uma multidão de cavalos e cavaleiros a circular e a mostrar os seus dotes. Em redor do Arneiro encontramos as típicas casetas, estas de apresentação simples, quase que como bungalows; são espaços conviviais que estão um pouco dispersos pela Feira, mas particularmente no Arneiro. Normalmente particulares e é precisamente nestes espaços que os criadores de cavalos fazem negociações ou simplesmente aguardam e recebem potenciais clientes. Costuma haver petiscos para entreter e vinho para aquecer as noites frias de São Martinho. Estes espaços funcionam quase como tertúlias, onde os anciãos ensinam aos mais jovens a “arte de bem cavalgar toda a sela”; ouvem-se opiniões, fazem-se criticas, normalmente os “entendidos dos cavalos” estão nestes espaços, quer seja a vender as suas rezes, quer seja a observar oportunidades de negócio que se passeiam pela manga.

Existem também várias tertúlias que vão alegrando as ruas da vila. Uma tertúlia é por excelência um local onde se reúnem familiares e amigos, local onde se come e debate assuntos vários, a par da caseta. No caso da tertúlia tauromáquica, o assunto fulcral é a Festa Brava, sendo abordados assuntos relacionados com Touradas, Garraiadas, Festas Populares. Não se sabe a existência desta tradição, sabe-se que a origem das tertúlias é espanhola, influenciando a cultura taurina. Relativamente ao espaço, as tertúlias vivem imenso de fotografias de touradas, de cartazes com cartéis taurinos, cartazes de seda, bilhetes, bandarilhas, vestuário tauromáquico, cabeças de touros, cabeças de cavalo, arreios, pinturas, capotes, moletas, barretes de forcados, pampilhos, tricórnios, estribos, ferraduras, criando quase que um museu ou um espólio variado de museu etnográfico.
Actualmente as tertúlias tauromáquicas estão em voga, pois é uma maneira de manter viva a tradição tauromáquica, a amizade pela Festa Brava, receber e reunir com amigos. A proliferação tem-se dado por todo o país, principalmente nas regiões com forte ligação a actividades tauromáquicas – Ribatejo e Alentejo.

Os Espaço de diversão nocturna têm-se difundido cada vez mais durante a Feira, retirando o cariz franco da Feira Nacional do Cavalo. Bem sei que os certames têm de evoluir de alguma maneira, caso contrário vão perdendo público, no entanto, penso que a FNC tem evoluído imenso a todos os níveis, mas no que respeita aos espaços de diversão nocturna, penso que deveria de existir algum controlo, pois estão cada vez mais citadinos, contrariamente à génese inicial da Feira. Os Restaurantes também são muito importantes neste evento, não só por serem típicos, mas também porque alimentam muito a vida na vila. Os mais populares são: Adega típica “O Cú da Mula”, Café Central, Restaurante Lusitanus, Capriola (Hotel Lusitano). O Alojamento que é também um factor importante no que toca ao Turismo, temos primordialmente o Hotel Lusitano e imensas residenciais.

Por fim, durante a Feira costumam premiar-se pessoas do meio dos Cavalos, mas também agraciar e distinguir personalidades que, de uma maneira ou de outra levaram o bom nome do país a todo o mundo.


André Lopes Cardoso

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Traje Português de Equitação

A sociedade contemporânea tem vindo a desvalorizar um conjunto vasto de conformes, preceitos e tradições que, outrora eram levados à risca. A questão do liberalismo totalitário veio estragar muita da nossa cultura, da nossa identidade; não pensem por isso que sou antiquado, penso sim que a equipa vencedora não deve ser mexida.
Se atentarmos num vídeo ou fotografias de pessoas na primeira metade do século XX, percebemos rapidamente que os nossos usos e costumes mudaram drasticamente. A moda é, de facto uma das áreas que mais se degenerou, para pior na minha honesta opinião, apesar de cíclica. A introdução do plástico no vestuário veio tornar tudo muito mais artificial e sem qualidade, acabando por revelar modelos ridículos. A própria sociedade, numa tentativa de estar “na moda” acaba no caricato. Por isso mesmo e, não sendo especialista em moda, disserto sobre o traje português de equitação, o qual tem sido alvo de grande desprezo e falta de respeito!
Sabe-se que, o traje português de equitação foi sofrendo algumas adaptações ao longo do tempo, mas a sua génese é semelhante à indumentária utilizada em toda a Europa, após a Revolução Francesa, principalmente a Jaqueta, o Colete e as Calças.
Repare-se no caso das províncias, nalgumas delas, montar a cavalo não fazia parte das actividades quotidianas/profissionais da população, no entanto o traje utilizado era semelhante, com alguns ajustes. Podemos rapidamente percepcionar esta situação num rancho folclórico, onde nos é apresentado um quadro social diversificado, mas maioritariamente rural. A indumentária é semelhante entre os vários grupos étnicos, tanto pela cor, corte, adornos. No caso do traje português de equitação, os pormenores que lhe são inerentes fazem a diferença, distinguindo-o do traje popular.
A Jaqueta, Jaleca ou Jabona assemelha-se a uma casaca a que se cortaram as abas, trata-se de um casaco curto aflorado a linha da cintura ou terminando um pouco abaixo desta. A gola de virados é frequentemente enriquecida pela aplicação de veludo ou veludilho na sobre gola, tem dois bolsos verticais de cada lado do peito debruados com veludo, pela fenda do bolso sobressai uma réstia do tecido do forro em vermelho. A jaqueta fecha-se no peito com botões ou alamares que podem ser de prata ou cordão. Atualmente tem-se visto, cada vez mais, jaquetas em que a gola é forrada a pele de raposa. O colete é abotoado até a altura do diafragma podendo este ter a gola de revirados e ter a abertura a frente em forma de V ou arredondado para se possa ver os folhos da camisa, as costas feitas de tecido mais leve com cordão a ajustar o tronco. A calça do traje a portuguesa é de perna cortada a direito, terminando à altura do tornozelo sem dobra, o cós é alto, atingindo quase a extremidade inferior do esterno, acompanhando os rins, bem ajustado ao corpo, a braguilha de casas e botões está escondida pela pestana, mas a partir da cintura os botões tornam-se visíveis. Chapéu à portuguesa de aba larga, copa côncava com uma virola, também conhecido por "mazantini". A camisa é confeccionada com tecido fino e de boa qualidade em branco, a carcela pode ser enriquecida com pequenos canudos ou de um folho largo franzido feito do próprio tecido da camisa, o peito pode ser adornado de nervuras, ou de pregas pequenas ou largas. As botas ou botins costumam ser curtos, de maneira a poderem ser acopladas as polainas. O salto da bota é de prateleira, suportando a espora.
Em suma, as tradições são para preservar, pois são elas que definem a nossa verdadeira cultura. Tem-se visto em Feiras do Cavalo, por todo o país, pessoas mal trajadas o que acaba por vir descontextualizar tudo aquilo que aqui foi dito. Façam o favor de serem portugueses e reforcem a nossa identidade!

André Lopes Cardoso