segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Júlia Ramalho


O Surrealismo português nunca teve grande expressão. Muitas das obras do século XX estão agora a começar a receber alguma atenção por parte dos críticos de arte. Uma das mais promissoras artesãs de todos os tempos, Rosa Ramalho, foi exímia na Arte Surreal. De nome Rosa Barbosa Lopes, nasceu a 14 de Agosto de 1888 e faleceu em Dezembro de 1977. O seu pai era sapateiro e a mãe tecedeira, por isso, desde muito cedo, tomou conhecimento e contacto com as artes ditas manuais. Aprendeu a moldar em jovem, mas abandonou a atividade para cuidar da família. Só com 68 anos de idade, Rosa voltou a moldar o barro e a criar as peças surrealistas e fantasiosas que tanto a caracterizam.
As suas peças são todo um conjunto de conceitos, pois são simultâneamente dramáticas, fantasistas, surrealistas, animalescas, bíblicas – tudo isto devido à sua poderosa imaginação e criatividade. Foi toda esta mistura de conceitos que a distinguiu perante os restantes ceramistas, atingindo uma fama “mundial”. Segundo Júlia Ramalho, a sua avó ia encontrar esta inspiração em sonhos que tinha. Sonhava com figuras mitológicas, medusas, diabos.
Descoberta por António Quadros (designer), foi a partir dele que começaram que começaram as primeiras críticas aos seus trabalhos, começou a ser divulgado nos meios de culto.
Em 1968 foi-lhe entregue a medalha “As Artes ao Serviço da Nação”. Mais tarde, o reconhecimento pelo Presidente da República a 9 de Abril de 1981, atribui-lhe o grau de Dama da Ordem de Santiago da Espada.
Mário Cláudio escreveu um livro sobre Ramalho intitulado Rosa, de 1988, integrado na Trilogia da mão. Existe ainda uma curta-metragem de Nuno Paulo intitulada À volta de Rosa Ramalho, de 1996. Como reconhecimento do seu trabalho, atualmente dá nome a uma rua da cidade de Barcelos e à Escola Básica 2,3 de Barcelinhos. Pensa-se ainda que a sua habitação venha a transformar-se em Museu de Olaria homónimo, bem como a sua oficina, situado em São Martinho de Galegos.

Júlia Ramalho (3 de Maio de 1946), neta da famosa ceramista Rosa Ramalho, é um marco na Produção de Cerâmica Nacional. Ramalho continua a seguir a sua avó, a herança que lhe deixou, conseguindo criar peças bastante idênticas, mas com o cunho Júlia Ramalho. Foi sua discípula desde muito nova, herdou da avó o gosto pela Olaria e a Criatividade. As temáticas não são muito variadas, como fulcral são o Tema dos Pecados (Gula, Avareza) e o Tema das Virtudes (Paciência, Justiça). A ceramista também produz o Cristo na Cruz e o bode que eram as imagens de marca da sua avó, para além dos diabos. Estes últimos, Júlia deixou de os produzir, pois conta que, algumas pessoas a quem lhes era oferecido o diabo ou mesmo comprado pelo próprio, trazia imenso azar. Júlia recomendou que o deitassem ao Douro (rio português), de maneira a libertarem os “males”.
Segundo a ceramista, a peça mais emocionante que projetou foi uma medusa gigante que tem no seu atelier, mas também declarou que não repetirá tal proeza. Medusas, Bacos, Diabos Trovadores, figuras fantásticas, Padre Inácio, figuras marcantes e que têm uma atmosfera própria.
Júlia Ramalho faz peças por encomenda, “há minha maneira, toscas...”, mas se o cliente não gostar do resultado final não há problema, “(...) eu fico com a peça...”. Trabalha por gosto e não por dinheiro, mas lamenta que o mesmo faz falta e que move o mundo. Quando está em dia mau, declara que não adianta. Quando em dia bom, tudo sai bem e orgulha-se disso.
Numa pequena troca de palavras com a artista durante a Feira de Artesanato de Vila Franca de Xira, percebeu-se rapidamente que a sua peça favorita é a Paciência, pois “é elaborada e nunca sai igual...”. Júlia mantém a sua postura no stand, enquanto aguarda pela venda de qualquer peça. Segundo a ceramista, as feiras de artesanato são muito cansativas e vende-se pouco, é a crise desabafa. Para o ano não pensa vir ao Salão de Artesanato, se vier é muito a pedido dos seus fãs, pois vende “pouco” e porque está a avizinhar-se uma altura que tem imensas vendas, o Natal - “Estou aqui parada, podendo estar a trabalhar no atelier”. O que compensa Júlia é realmente a quantidade de seguidores que tem, já há muito tempo em Vila Franca, Alhandra, Lisboa.
A concorrência é forte, nomes sonantes como Rosalina Baraça ou Júlia Côta, são também ceramistas ótimas, mas que abordam um estilo diferente, mais popular, ainda dentro da área do Figurado Barcelense. Tem algumas abordagens interessantes da parte de alguns clientes, um partiu uma orelha de uma peça e pediu a Júlia para repetir a peça, mas ficou maior. Não houve problema, porque as virtudes “devem” ser maiores do que os “pecados”, logo correu bem. Outro cliente disse que as peças davam vontade de comer, pareciam caramelizadas. Os clientes normalmente compram colecções completas das virtudes e dos pecados.
Atualmente já conseguiu uma exposição mundial, tem clientes em todo o lado, Alemanha, Espanha, revelou.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Less is more


1. O Início de um grande futuro

         Por volta da (1900) viragem do século XIX para o século XX, não existia uma linha projectual coerente entre os diversos criadores. A obra de Mies Van der Rohe surgiu na sequencia do movimento Arte Nova[1]. Sendo que, a obra do arquitecto faz, por isso, a ponte entre o movimento Arte Nova e o Modernismo.
         A principal preocupação de Mies foi a Arquitectura Internacional que consiste na racionalização das formas;  geometrização e depuração das formas foram as suas grandes preocupações, para que pudesse guiar todo o processo criativo e projectual.
      
         Começou a trabalhar com catorze anos numa empresa de construção civil, mas mais tarde tirou um curso de designer numa escola de comércio, acabando com um diploma em revestimento de estuque.
         Quanto à sua formação artística, Mies foi bastante inspirado por Berlage (Neoclassicismo), contrariamente ao seu contemporâneo Le Corbusier[2], que seguiu as pegadas do movimento Arts & Crafts[3].
         Em 1905 saiu de Aachen, foi morar para Berlim em busca de novas oportunidades de carreira. Aqui trabalhou para um arquitecto, mas este não o deixava explorar a sua criatividade, então especializou-se novamente em design, mas desta vez em design de equipamento (móveis) sob a alçada de Bruno Paul.
         Todas estas trocas de empresas e arquitectos iam revelando a Mies que o futuro não era estar sob a alçada de um arquitecto, mas sim por sua própria conta. Foi então que encontrou Peter Behrens, criador do logótipo da AEG e com quem trabalhou durante três anos.
         A derrota e o colapso do império militar-industrial alemão no fim da Primeira Guerra Mundial reduziram o país a uma situação de caos económico e político, daí Mies criar uma arquitectura mais orgânica do que a permitida pelos cânones autocráticos de Karl Friedrich Schinkel[4].
         O pós-guerra foi uma fase bastante produtiva para Mies, pois começou a projectar arranha-céus, em vidro, que marcaram profundamente toda a Arquitectura Moderna. Participou em vários concursos com projectos altamente inovadores, que foram bastante bem recebidos pelos clientes, pela sociedade em geral.
                                                                                            

2. Alemanha versus Estados Unidos da América

         A Alemanha sempre foi uma referência na Arquitectura, mas com o fecho da Bauhaus, pelos nazis (Adolf Hitler) em 1934, as coisas mudaram radicalmente.
         Os arquitectos reconhecidos deixaram de poder concretizar os seus projectos devido às condições precárias que a Alemanha oferecia na fase pós-guerra. Extremamente arrojados, estes projectos alemães começaram então a ser implementados nos Estados Unidos. Foi aqui que Mies veio a crescer enquanto arquitecto, pois a América era um país que procurava pessoas que soubessem criar, inovadoras; país de oportunidades.
         Com o crash da bolsa de Nova Iorque, os Estados Unidos começaram de novo a gerar riqueza, riqueza esta que disparou e que criou imensos postos de trabalho. O país começou a desenvolver-se a vários níveis. Na Arquitectura, os arquitectos europeus optaram por criar carreira na América, pois haviam muito mais oportunidades.
                                                            
3. Edifícios minimalistas

         No inicio da sua carreira, foi extremamente influenciado por Peter Behrens, logo de princípio os seus edifícios não eram minimalistas. Com o passar do tempo e também com a evolução da tecnologia, Rohe foi refinando. Se calhar o melhor exemplo da sua Arquitectura minimalista está no Crown Hall.
         A preocupação com a natureza exterior é de extrema importância, pois incorpora e faz a ligação entre os dois universos, o interior e o exterior.
         Grandes superfícies em vidro, o que dá imensa luminosidade, mas que também tem condicionantes, como por exemplo, ao nível da privacidade e da isolação térmica. Neste caso, os vidros ajudariam a criar o ambiente interior, que seria um ambiente de trabalho, visto este edifício pertencer a um Instituto de Investigação.
         O concreto foi uma grande novidade na Arquitectura Internacional, pois conseguiam montar toda a ideia através de paredes amplas, procurando não fugir das formas ditas puras. A base da construção residia agora em colunas, as quais suportavam o peso da estrutura, de tal maneira que, as paredes podiam ser escassas, de modo a haver uma multiplicidade de áreas distintas e amplas.

4. Pavilhão Alemão na Exposição de Barcelona

         Na sequência da administração bem sucedida, em 1927, da Exposição da Werkbund em Estugarda, Mies foi incumbido da gestão artística e da construção dos edifícios para todas as secções da Exposição universal de 1929.
         O «Pavilhão de Barcelona», como é vulgarmente conhecido,  é uma das principais obras de Mies. Projectado e concretizado em menos de um ano, o pavilhão deveria representar uma Alemanha democrática, culturalmente progressista, próspera e completamente pacifista.
         Os passos que Mies seguiu para criar o pavilhão foram a «planta livre» e o «compartimento flutuante». Como um templo antigo, o edifício assenta numa base de travertino[5] com uma vedação do mesmo material em forma de U, a sul, que dá para um pequeno anexo de serviço. Uma grande bacia de água, estende-se para sudoeste e cujas lajes do chão se projectam por cima das bordas, dando a impressão de uma cobertura suspensa, revelando o carácter estrutural das paredes. Placas de pedra de alta qualidade, como o mármore de Tinos, mármore verde-antigo e ónix doré, assim como o vidro colorido, marcam e pontuam todo o espaço, criando valiosas divisórias espaciais, deslizando debaixo da placa de cobertura, criando uma transição suave entre o interior e o exterior – sempre uma preocupação para Mies.
         Estas placas marmoreadas compõem todo o espaço, criando uma harmonia entre os vários compartimentos. A conjugação dos vários planos transmitem uma harmonia inquestionável, necessária numa visita a uma qualquer exposição agitada. A simplicidade de planos e o carácter texturado transmitido pelos mármores são os grandes marcos desta obra, contrastando com as amplas áreas de circulação e naturalmente, com o exterior. 
         As áreas de circulação, tanto as interiores, como as exteriores, foram pensadas, transmitindo um movimento rítmico coordenado com vistas cuidadosamente compostas – promenade.
         Sendo que a sua importância recaía particularmente para a estrutura, Mies pontuou os interiores do pavilhão com pouco mobiliário, o necessário, de modo a transmitir a leveza e pureza do espaço, dado pela diversidade de materiais. Pretendia isolar o individuo do mundo exterior, tudo combinava de modo a haver uma harmonia espacial. Desta maneira, desenhou especialmente para este espaço, a cadeira que ficou conhecida como Barcelona – desenho integral do espaço.


Conslusão: less is more

Os edifícios deveriam ser encarados como volumes, contendo espaço em vez de massas, isto tornara-se possível com o uso estrutural do aço. A aparência dos edifícios podia derivar das formas dos seus elementos horizontais e verticais e da sua repetição. A perfeição técnica e a elegância de proporções seriam realçadas, para oferecer qualidade estética na ausência de qualquer decoração.
            A maioria dos edifícios e o seu enquadramento ambiental devia ter um caráter industrial, técnico e de produção em massa, refletindo o ideal de desenhar para uma era da máquina. A parte "menos" (less) estava aí claramente demostrada, onde tudo estava reduzido aos mais simples elementos racionais e todas as outras considerações estavam subordinadas a uma geometria retangular. Quando elevado aos céus, este gênero de estilos geométricos angulares era  francamente apropriado à construção, em armação de aço, de arranha-céus de escritórios e à grelha dos traçados das ruas existentes nas cidades americanas. 
 Bibliografia


FRAMPTON, Kenneth – História Crítica da Arquitetura moderna. São Paulo: Martins Fontes,

ZIMMERMAN, Claire – Mies Van der Rohe. Bremen: Taschen,

PUENTE, Moisés – Conversas com Mies Van der Rohe. Barcelona, Espanha: Gustavo Gili, 2006.





[1][1] Arte ou Art Nouveau (do francês) foi um estilo estético essencialmente de Design e Arquitectura que também influenciou o mundo das Artes Plásticas. Esta relacionado com o movimento Arts & Crafts eteve grande destaque durante a Belle Époque, nas ultimas décadas do século XIX e primeiras décadas do século XX.
[2] Arquitecto, urbanista de origem suíça. Foi um dos mais notáveis arquitectos do século XX.
[3] Foi um movimento artístico que surgiu na Reino unido, aquando da Revolução Industrial. Preservava a manufactura como alternativa à mecanização e à produção em massa; pregava o fim da distinção entre o artista e o artesão.
[4] Foi o arquitecto neoclássico com maior destaque na Prússia.
[5] É uma rocha calcária, composta por de calcitaaragonita e limonita, nas quais se inscrevem pequenas cavidades, onde predominam os tons que passam pelo branco, verde ou rosa, apresentando, frequentemente, marcas de ramos e folhas.


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Design Industrial



Apesar de ser estudante de Design, interesso-me imenso por Pintura, seja ela de que estilo for, da mais antiga à mais contemporânea.  A meu ver, os designers são os “desenhadores do futuro”, pelo menos, é o que desejo ser, um “construtor de ideias”, ainda que muitas vezes possam não funcionar, mas o iphone quando foi projetado, também ninguém pensava que um dia iria funcionar.
Em Portugal, a profissão de designer industrial é rapidamente confundida com um marceneiro ou até carpinteiro, mas é bem mais do que isso. Projetista é o termo que mais me agrada, pois para além do projetar e conceptualizar ideias, um designer projeta de acordo com as necessidades da população ou por prazer. Muitas pessoas pensam que, um designer industrial ou um designer de produto é um tipo que faz mesas e cadeiras, como se isso não tivesse mérito, mas dizem-no em tom pejorativo, difamação. Queria aqui colocar e explicar o meu processo metodológico de criação, que apesar de virgem, pouco representativo, é o meu pensamento, o qual pode eventualmente elucidar designers, nem que seja somente como termo de comparação. Quando estudamos na faculdade existem sempre imensas restrições projectuais, ou porque o professor gosta mais da área da iluminação, ou porque prefere formas rígidas, pouco dinâmicas.
É importante conseguir enquadrar o nosso gosto com o do professor, e claro com o exercício em questão, caso contrário acabamos por estar a projetar sem querer.
Ao nível do Ensino, o Design tem muito por onde expandir, começando pelo simples facto de que, na Faculdade de Arquitetura, os futuros designers de produto têm maioritariamente aulas com engenheiros e técnicos especializados. Relativamente são uma mais valia, pois são exímios na concepção estrutural, mas por outro, levantam tantos problemas que acabam com a criatividade de qualquer ser. A realidade que eu conheço não será de longe a realidade perfeita, mas é na que eu me encontro e a que fez de mim o projetista que sou hoje.

“Design for needs”

Esta polémica frase, não sei de quem, já deu origem a muitos desacatos, pois alguns projetistas preferem reger-se por ela, enquanto que outros, usam-na só quando não têm mais argumentos para defender os seus projetos. Para mim, a afirmação faz sentido, na medida em que não nos devemos reger por ela, pois se assim fosse, estávamos (designers) a desenhar orçamentos económicos do Estado.

O Design é tão subjetivo como uma qualquer pintura de Klee. Apesar de ser uma disciplina do “bonito” ou “feio”, teres de ter open mind para puder proliferar no mundo empresarial. Eu gosto de projetar produtos que para mim fazem sentido, a Habitação no seu estadium geral. Desde a torneira da cozinha, à Pintura da sala. Certo é que, não existem objetos perfeitos, mas há objetos que servem...que cumprem as necessidades requeridas pelo utilizador. Enquanto projetista, prefiro que me peçam o que eu apelido de Arte Total. Isto de Arte Total tem muito que se lhe diga, porque para um intelectual do século XX seria a Ópera, pois é uma manifestação artística que reúne várias Artes como a Pintura, Escultura, Representação, Canto, Dança. A Arte Total no Design é um conceito bastante paradigmático, mas que tem como ponto fulcral a concepção geral de um espaço, na sua totalidade máxima; Mobiliário, Pintura, Escultura, Multimédia, Iluminação, Música, Representação - não esquecendo as premissas do Conforto, Bem-estar, Ergonomia, Funcionalidade, Equilíbrio, Beleza. Este conceito só é aprovado e vincado se for utilizado, obviamente pelo público-alvo a quem foi destinado e para o qual foi projetado.
Projetar uma casa é o paradigma clássica de sonho para um designer. O que colocar, como colocar, como revestir, qual a melhor textura, são percepções que muitos arquitetos não estão capacitados para o efeito (com pena!). Aposto que muitos de vós se entusiasmam sempre que alguém vai trocar de casa ou simplesmente vai trocar a mobília do salão. É isso mesmo, os designers são sarcásticos, principalmente os de produto, que querem sempre passar a sua doutrina ética visual, como que de um testemunho se tratasse. Querem deixar a sua marca e serem aclamados por tal feito – Foi X que fez, foi Y que deu a ideia.
Em qualquer ambiente tem de existir a atmosfera perfeita, a qual é muito difícil de encontrar ou atingir, ou por não haver gosto e conhecimento do espaço a tratar ou, por não haver condição económica, ou por a disposição da casa não ser a ideal... Os designers de produto são os especialistas na criação de objetos ou produtos para espaços específicos e em condições peculiares.



O caso da Kamay Chair é o exemplo de que uma poltrona não é um sofá grande, pode ser aquilo que nos quisermos. Kamay Chair foi desenhada para espaços exteriores, mas coaduna-se a qualquer ambiente. Por ser construída em resina de poliéster e os braços em madeira MDF, esta poltrona é extremamente contemporânea e conjuga dois materiais pouco prováveis de serem utilizados em poltronas. A verdadeira é que correr riscos é para muitos, mas superá-los é só para alguns. A Kamay funciona!

O facto de ser português e de ter nascido imbuído na crise fez de mim um “projetista barato”, alguém que faz muito, mas com pouco; para isso tem que haver um conhecimento vasto ao nível dos materiais que vamos aplicar.

Os designers são uns conhecedores do mundo, têm de ser interessados em todas as áreas e raramente podem falhar.

domingo, 9 de setembro de 2012

Design Gráfico em Portugal


DESIGN GRÁFICO EM PORTUGAL

O Design gráfico tem evoluído muito nos últimos anos. Ilustradores, Pintores, Ceramistas, desenhadores muito fizeram para que o design gráfico evoluísse e se tornasse aquilo que é hoje.

O que é um designer gráfico? Na verdade não existe um termo que consiga definir facilmente a profissão de designer, é todo um conjunto de skills que, quando reunidas, formam o dito designer. Não será somente alguém que desenha, mas algo bem mais complexo. Um designer é um criativo que, neste caso (gráfico), pensa cria, desenha, interpreta, reinterpreta, comenta, visualiza, pesquisa, investiga, critica, teoriza. Não podemos apelidar de designer um individuo que abre o Illustrator ou o Photoshop e faz desenhos ou até cópias de desenhos que já visualizou outrora. Um designer não trabalha com o computador, o computador é que trabalha com o designer! Este é o verdadeiro erro do século XXI, ensinar Design através de um Apple que, como é “bonito” elucida os “pseudo-designers” a trabalharem. O nosso trabalho vai muito para além de uma máquina “gira”, tudo começa aquando do lançamento do briefing, por outras palavras, o nosso pensamento começa a viajar enquanto nos estão a explicar, ou a tentar explicar, a ideia. A nossa cabeça viaja por todo o mundo, pensa em coisas ridículas, as quais nos fazem rir e dizemos para nós: “que ideia ridícula”. A viagem continua, pensamos em maneiras de mostrar o nosso valor, voamos mais alto e queremos surpreender o nosso cliente, tanto que acabamos estafados e sem nada em concreto.

Outras vezes temos uma boa ideia inicial, mas não gostamos dela, ou porque não vai chocar, ou porque é igual a tantas outras, mas o que é certo é que ligamos o “motor da viagem”, viajamos imenso, mas acabamos por ficar com a ideia inicial e o trabalho torna-se aborrecido, porque nunca quisemos que aquela ideia fosse para a frente, mas por falta de tempo, teve mesmo de ser aquela.

O designer é um viajante em busca de novidades.

O trabalho do designer gráfico assenta muito na concepção de identidades corporativas, ou seja, criação de logótipos, cartões de visita, papéis de carta, flyers, vouchers – acessórios ligados à área de impressão (papel). Desde há muitos anos que se faz este tipo de trabalho em Portugal, mas era um trabalho pouco reconhecido, também porque era pouco divulgado, não havia maneiras de mostrar o talento que estes prodigiosos designers nos deixaram, com algumas exceções.

Há uns meses falei do pintor e designer Stuart Carvalhais, o qual deixou algumas marcas que ainda hoje são utilizadas. Podemos pensar até que foi Stuart que impulsionou a Arte da Caricatura em Portugal. Almada Negreiros, Santa- Rita Pintor, Amadeo de Souza Cardoso, conhecidos como pintores, estes senhores foram os pais do Design em Portugal, não descurando outros tantos. No século XX a profissão de designer não era reconhecida, eram os pintores e desenhadores que faziam este trabalho. Desenhavam e caricaturavam para revistas, desenhavam tipos de letra, como no caso do famoso designer tipógrafo Daciano da Costa; faziam trabalho de paginação, de arte-final e, eram conhecidos como pintores.

Felizmente o conceito tem-se vindo a alterar, mas o que é certo é que com a era da máquina, muitas das práticas importantes têm vindo a cair em esquecimento. Os designers do século XXI não usam papel para desenhar, desenham diretamente no Illustrator sob a desculpa que as árvores estão a desaparecer e que a subida das águas dos mares tem a ver com a falta de árvores. Este lado ambientalista não lhes fica nada bem, até porque o computador só nos mostra aquilo que nos queremos ver. Na verdade, o computador é uma excelente acessório de trabalho, mas só faz aquilo que nós pedimos, sozinho não faz nada. Tudo o que é projetado num computador tem um fundamento, parte do nosso cérebro, e o computador realmente transforma a informação em algo palpável. O método de impressão é um ponto muito importante para um designer, pois tudo o que é feito no computador deve ser impresso, pois existem imensas variações entre cores CMYK (papel) e RGB (ecrã do computador), as quais, por vezes, podem gerar surpresas.

Às vezes dou por mim a ver se os flyers estão alinhados ou se a impressão foi concebida numa plotter ou a jacto de tinta, mas o que me impressiona mesmo é ver peças de design gráfico antigas (anos 60, 70) e que parecem tão atuais.

Falando de Design gráfico em Portugal e de peças dos anos 60,70 e 80, não posso descurar a empresa Olegário Fernandes, Artes Gráficas S.A. que tem vindo a fazer um trabalho de excelente qualidade na área. Anualmente é publicada uma Agenda Almanaque na qual estão reunidas peças de design português de extrema importância e qualidade para a nossa área. Peças estas que fazem parte da nossa memória e da nossa cultura e que, cada vez mais, são procuradas, tanto por profissionais, como por curiosos, de modo a fazerem parte das paredes de habitações ou até para fazerem parte de um café recatado. A Agenda Almanaque oferece uma coleção vastíssima de imagens de design português tais como: cartazes, fotografias, grafites, publicidades antigas, memórias. A professora Theresa Lobo faz parte deste ambicioso projeto, pois possui uma vasta experiência na História do Design Português. Theresa Lobo, professora universitária, ilustratdora, pintora, jornalista, é uma das grandes investigadoras de Design português, principalmente cartazes e ilustrações. No seu livro intitulado “Ilustração em Portugal I – 1910 a 1940”, Theresa faz uma recolha imensa de cartazes portugueses, demonstrando o espírito que se vivia na época da sua concepção, bem como as dificuldades de os artistas e a população em geral passavam. Esta recolha estruturada, fundamentada e bem documentada faz de Theresa Lobo, a meu ver, uma das grandes investigadoras na área do Design Editorial, a par de José Augusto França.

Antes mesmo de ter publicado o livro “Ilustração em Portugal I – 1910 a 1940”, em 2009, publicou também o livro “Cartazes Publicitários”, coleção Empreza do Bolhão, Porto, Edição Inapa.




Acho que todos os designers têm estas manias!