quinta-feira, 19 de junho de 2014

Bordado de Nisa

Não se sabe ao certo a data de surgimento deste tipo de bordado, mas sabe-se que é uma tradição secular. O principal motivo de produção deste tipo de bordado era pela época do casamento, tal como nas Colchas e Bordados de Castelo Branco. Os Bordados de Nisa eram utilizados nas colchas das camas das noivas, normalmente produzidos pelas próprias, invejando as demais jovens solteiras que as admirassem. Certo é que as jovens bordadeiras eram ensinadas pelas anciãs, mas com o prolongamento da escolaridade obrigatória, acabaram por se perder muitas destas tradições, pois as jovens ficavam sem tempo para todos estes trabalhos manuais. O tempo devassou esta arte, sendo atualmente difícil encontrar bordados de extrema qualidade ancestral, como os que eram produzidos nos séculos XIX e XX. Muitas vezes já se começam a observar bordados executados através de maquinaria industrial, o que resulta em bordados menos cuidados e morosos. Por outro lado, as encomendas feitas atualmente são baseadas em revistas contemporâneas, as quais retiram o carácter popular português dos Bordados de Nisa (Calvet de Magalhães, 1995).
Alinhavos de Nisa, pormenor de bordadeira
http://artesaosddinis.blogspot.pt/2012/02/bordado-alinhavos-de-niza.html

“As rendeiras estão sentadas em tripeças, junto das portas, vestidas com trajes característicos - saias escuras com barras claras, roupinhas de pano, lenço traçado sobre o peito, e mantinha curta na cabeça ou o clássico chapéu nisense; adornam-se com gargantilhas e fios de ouro, onde predominam os antigos hábitos de Cristo, de ouro esmaltado. Algumas delas, com rebolo (almofada) sobre os joelhos, vão fazendo as rendas de colchete, das mais complicadas, rendas de rebolo (bilros), ou fazendo renda de agulha, que servem, as mais das vezes, para colchas, que levam anos a compor e que gerações guardam nos arcazes, servindo somente nos dias festivos de bodas ou baptizados. A indústria das rendas de Nisa, restringida ao uso local, nota certo desenvolvimento no labor das rendeiras, pela exportação de muitos e belos exemplares.”

                            In Bordados e rendas de Portugal, Coleção Educativa, Série N, nº 10


                  Existem vários tipos de Bordados de Nisa, revelados pelos diferentes pontos existentes ou aplicações: Alinhavados, Xailes, Coberjões ou Cobertores Bordados, Aplicações em feltro, Renda de Agulhas, Renda de Bilros, Frioleiras. É nos Alinhavados nisenses, também conhecidos por Desfiados, Ramos de Panos ou Caramelos (bordados antigos) que fica patente o expoente máximo dos Bordados, pensando-se que advêm dos bordados italianos do século XV. O tecido que serve de base ao bordado é preferencialmente o linho, em todo o caso também pode ser utilizado o alinhado que é um composto de linho e algodão; mas também o pano-cru, que é normalmente utilizado pelas classes menos favorecidas (Calvet de Magalhães, 1995).

Cobertor bordado à mão - Antónia Polido
http://memorianisense.blogspot.pt/2012_11_01_archive.html

A característica do Alinhavado é o retirar das linhas que se encontram em excesso, obtendo-se vazios nos desenhos bordados. Os restantes pontos são guarnecidos a ponto de crivo. Todo o desenho é delimitado a ponto de cordão, um ponto simples que serve somente para a bordadeira ter noção das margens dos desenhos. O desenho é posteriormente bordado a ponto de crivo, que recorre a fios enrolados, tornando o bordado muito resistente e duradouro. Nos bordados antigos, também conhecidos por caramelos, o ponto era executado de maneira diferente dos alinhavados atuais, pois não havia tecido por desfiar, então os desenhos eram conseguidos através do ponto de passagem, preenchendo assim as quadrículas que formam o desenho (Calvet de Magalhães, 1995).

Cachené profusamente bordado com bordados de Nisa
http://amesadeluz.blogspot.pt/2012/04/museu-do-bordado-e-do-barro-de-nisa.html

Este fenómeno ocorrido nos caramelos acontecia provavelmente por não haver papel químico para auxilio no decalque dos desenhos. Assim, os desenhos eram recortados em papel e alinhavados ao tecido, recorrendo a alfinetes para fixá-los numa almofada, onde se começava a tirar os fios e a bordar o crivo e os recortes. A temática é maioritariamente vegetalista, motivos florais e naturais, mas no caso dos caramelos, era bastante mais variada: figuras humanas, animais, cruzes, formas geométricas, florões, flores, folhas. Qualquer desenho pode servir de mote ao Bordado Alinhavado de Nisa, podendo posteriormente ser aplicado em almofadas, centros de mesa, panos, cortinas, lençóis, fronhas, toalhas, bases de copos, vestuário, muitas vezes associado às rendas de bilros (Calvet de Magalhães, 1995).
                  Os Xailes bordados são uma peça essencial do traje típico de Nisa, acabando por ser uma peça importantíssima para os nisenses, na qual também são aplicados os Bordados. A técnica é semelhante à anterior relatada, mas o tecido utilizado para a execução do xaile é merino. Nos xailes antigos, também conhecidos por cachenés, utilizava-se lã e atualmente utiliza-se fibra, pois é um tecido mais económico. Os xailes mais conhecidos são os de cor preta, com desenhos florais coloridos, fazendo um contraste gritante de matizes; mas também existem xailes brancos, utilizados principalmente na época carnavalesca, conjugados com a saia de feltro encarnada Depois de tudo bordado, remata-se toda a bordadura do xaile com agulha de croché, sendo posteriormente executadas as lérias ou franjas de rabinho de gato, vulgarmente assim conhecidas por serem extremamente macias (Calvet de Magalhães, 1995).

André Lopes Cardoso


Bilbiografia

Calvet de Magalhães (1956). Bordados e Rendas de Portugal, Coleção Educativa, Série N, Nº 10. Lisboa 

Calvet de Magalhães, M. (1995). Bordados e Rendas de Portugal. Lisboa: Editorial Nova Vega. 

http://artesaosddinis.blogspot.pt/2012/02/bordado-alinhavos-de-niza.html, consultado a 19 de Junho de 2014.

http://amesadeluz.blogspot.pt/2012/04/museu-do-bordado-e-do-barro-de-nisa.html, consultado a 19 de Junho de 2014.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Cadeiras Alentejanas

Boa noite,

Como sabem, uma das valências deste blog é recuperar objetos esquecidos no tempo, tornando-os novamente objetos de culto que atravessaram gerações e que de facto fazem parte da nossa cultura.



As cadeiras alentejanas estão extremamente propagadas, mas a origem da sua Imagética é desconhecida. Existem dois grandes tipos de Cadeiras alentejanas:
1.     Cadeiras com assento em palhinha;
2.     Cadeiras com assento em palhinha, profusamente desenhadas.

As mais populares são as do segundo grupo, pois fogem às convencionais cadeiras de palhinha, mas também existem bancos, cadeirões de sala, cadeiras de baloiço, todos eles desenhados. Produzidas manualmente, estas cadeiras são, normalmente, produzidas em madeira de pinho maciço e só posteriormente é concebido o empalhamento do assento em buinho ou tabôa (plantas herbáceas). O buinho é apanhado enquanto verde, depois é criteriosamente cortado em vários comprimentos, posteriormente é posto a secar. Utilizado no empalhamento de vários artigos, como cadeiras, mesas, canapés, cadeirões, bancos, objetos decorativos. Antes de ser utilizado é demolhado, de maneira a tornar-se mais dúctil, não quebrando enquanto se entrança (Perdigão, 2001).

Cadeira Alentejana | Merceria Alentejana


A utilização do buinho é perspicaz, pois alia duas valentes premissas, o conforto e a ergonomia, pois este é extremamente cómodo e elástico, adaptando-se ao corpo. Por outro lado, este material natural transmite a sensação de aquecimento no Inverno e de fresco no Verão. Manuel Amélio (1925) é um dos empalhadores de cadeiras do Redondo que ainda trabalha para o artesão José Vicente (Vicente, 2010).

Bibliografia

Perdigão, T. (2001). Tesouros do Artesanato Português - Madeiras, Fibras vegetais e afins (Vol. I). Lisboa: Editorial Verbo.

Vicente, J. (2010). Cadeiras do Alentejo. Obtido em 16 de Janeiro de 2013, de http://cadeirasdoalentejo.blogspot.pt/



segunda-feira, 19 de maio de 2014

Abstrato idem abstracionismo

O abstracionismo é uma corrente artística que faz com que o observador se abstraia do objeto abstrato artístico e se foque no pensamento e na mensagem desse mesmo objeto. É considerado como uma fuga ao figurativismo, acabando por entrar no campo da reflexão filosófica.
Campino a campo
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Maio 2014

Toureiro a citar
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Maio 2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Vila Franca de Xira, Portugal

Vila Franca de Xira é a localidade que me acolhe há 24 anos, 8 meses e 10 dias, ou seja, 8989 dias. Neste contexto, decidi fazer uma pequena reunião de artefactos culturais, presenteando assim a cidade. Obrigado Vila Franca pela inspiração que me ofertas.

Vila Franca de Xira - Portugal
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Maio 2014


sexta-feira, 2 de maio de 2014

Ilustração

Boa tarde amigos,

Aproveito este post para vos desejar um bom fim-de-semana.

Espero que gostem das ilustrações.
Campino
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Abril 2014

Fado
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Março 2014

Varina
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Março 2014

terça-feira, 29 de abril de 2014

Lezírias e a Ilustração

Hoje deixo-vos com alguns dos meus desenhos favoritos, relativos ao Ribatejo.

Ceifeira 
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Abril 2014

Forcado
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Abril 2014

Varina
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Abril 2014

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Cultura Popular Portuguesa

O nosso país e os nossos ideais estão mesmo em constante mutação.

No Sábado tive o gosto de assistir a uma reportagem relativa aos anos 50 do século XX e, ao modo como as pessoas se vestem e penteiam na contemporaneidade; conforme esse padrão dos ditos anos 50. Bem sei que é clichê, mas de facto - a moda é cíclica - o que acaba por ser muito interessante, pois acabamos por rever roupas e objetos que já não víamos desde a altura em que estiveram "na moda". Cada vez mais nos deparamos com um regresso ao clássico, às artes de início de século XX, aos penteados dos anos 50, aos automóveis retrô, a comprar peças vintage. O próprio conceito musical está em fase de mudança, ouve-se novamente o estilo jazz e o blues, soul e música intervencionista. Lisboa e os lisboetas estão a mudar.

Foi nesse sentido que foi escrita a tese intitulada Cultura Popular Portuguesa, que já se encontra on-line, pronta para ser descarregada ou simplesmente lida em:

https://www.repository.utl.pt/stats?level=item&type=access&page=downviews-series&object=item&object-id=10400.5/6618

Neste nosso caso de mestrado, a preocupação assentou nos objetos que têm vindo a desaparecer, principalmente das camadas mais jovens, o que me desagrada profundamente, pois existem objetos riquíssimos que fazem parte da nossa cultura e que não podem desaparecer.

Foi um privilégio trabalhar esta área tão portuguesa e tão nobre, acabei por aprender tanto sobre o nosso país e sobre a nossa arte. Ao ver estas mini-reportagens fico ainda mais convencido que fiz a escolha certa.

Como sabem tenho andado ausente, pois o trabalho como formador é bastante cansativo e requer muito do meu tempo. No entanto, como têm reparado, tenho andado muito dedicado à ilustração, principalmente das nossas profissões e novamente, da nossa Cultura Tradicional.

Em breve surgiram novidades.

Garrafa antropomórfica representando "A Guitarrista" por Maria dos Cacos
Faiança artística vidrada
Caldas da Rainha
Lembro-me de um texto que li enquanto escrevia a tese sobre a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha e os imensos altos e baixos que tiveram, as recusas que tiveram e o desinteresse nacional pela arte bordaliana. Paralelamente a este desinteresse nacional, a arte bordaliana foi à Exposição de Paris de "1800 e tal" representar Portugal e esgotou todas as peças. Quer isto dizer que, não desistam de lutar por aquilo que realmente pretendem fazer no futuro.

Excelente semana ;)


       André Lopes Cardoso