segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Manuel Lopes Bexiga vulgo "Maltez Rico"

Os tempos eram difíceis, vivia-se com base na Agricultura, e tudo girava em redor dos campos e dos produtos que advinham deles. No Ribatejo, existiam duas grandes e distintas valências, os trabalhadores agrícolas (lavradores, seareiros, jornaleiros) e os pescadores. Segundo Alves Redol, os primeiros eram apelidados de gaibéus e os segundos de cagaréus, sendo que os primeiros vinham do interior Norte para trabalhar os campos ribatejanos, principalmente as Lezírias, executando principalmente trabalhos como valadores e ceifeiros. Quanto aos cagaréus, estes vinham principalmente da Murtosa, Ovar (varinos) e de Vieira de Leiria (avieiros) acabando por se fixar também no Ribatejo, tirando partido do que havia no Rio Tejo, que era extremamente navegável contrariamente ao Oceano Atlântico.
Falamos de século XIX e evolução era coisa que não existia, a contracepção era coisa que não existia e, por isso, nasciam imensas crianças, mas a taxa de mortalidade infantil também ela era imensa, principalmente por doenças do foro respiratório (pneumónica).
Manuel Lopes Bexiga (1861-1947) foi um lavrador ribatejano que se destacou no seu meio e no seu tempo, devido ao seu esforço e trabalho. Nasceu a 11 de Abril de 1861, ficando conhecido por "Maltez Rico" tanto em Vila Franca de Xira, como na região. Foi apelidado de "Maltez", porque saiu de casa dos pais antes de casar. Sabe-se que era filho do Sr. Manuel José Lopes Bexiga (Casa de Fernandares, 1826) e da Sr.ª Ana Maria Baixinho (A-de-Mourão), mas não existem mais referências acerca dos seus pais. Neto paterno de Francisco Lopes Bexiga e de Dona Ana Bárbara (Santiago dos Velhos, 1793) e Materno do Lavrador Manuel Lopes Baixinho (Santiago dos Velhos, 1821) e da Sr.ª Ana Maria. Sabe-se que a Família Lopes Bexiga é originária de uma localidade próxima de Santiago dos Velhos, concelho de Arruda dos Vinhos. 


Manuel Lopes Bexiga, "Maltez Rico", c. 1900
Vila Franca de Xira
Gertrudes Maria da Conceição "Maltez Rica", c. 1900
Vila Franca de Xira

Casou-se com a Sr.ª Gertrudes Maria da Conceição (1876-1958) filha de Romão Mateus e de Maria Gertrudes, ambos nascidos e moradores em Casal de S. Romão, São João dos Montes. Desta união nasceram oito filhos: Teodora da Conceição Lopes (1897), Maria da Conceição Lopes (1899), Guilhermina da Conceição Lopes (1903-1956), Romana da Conceição Lopes, Marcolina da Conceição Lopes, Maria Gertrudes da Conceição Lopes (1913), Manuel Lopes Bexiga Junior, Teresa da Conceição Lopes. A vida destas dez pessoas estava dependente do que o campo oferecia e, foi neste sentido que, Manuel Lopes Bexiga se destacou, não só como proprietário de várias casas agrícolas em Vila Franca de Xira, mas também como Lavrador.


Marcolina da Conceição Lopes

Relativamente às propriedades que geria, sabe-se que Lopes Bexiga detinha um pequeno império de propriedades rústicas das quais se destacam a Quinta da Mata, a Quinta da Valença, várias propriedades em Casal Novo e Casal Velho, Quinta da Costa Branca, propriedades em Alhandra hoje propriedade da Cimpor (pedreira).
A Quinta da Mata foi herdada pela filha Guilhermina da Conceição e situa-se na Rua do Bairro da Mata, em Vila Franca de Xira. Nesta propriedade eram exploradas diferentes culturas, nomeadamente vinha e árvores de fruto.


Quinta da Valencia, Vila Franca de Xira
Retirado da Secções Cadastrais do Cadastro Geométrico da Propriedade Rústica, Secção P,

A Quinta da Valencia era a residência oficial de Lopes Bexiga, situada em Vila Franca de Xira, uma propriedade bastante grande, confrontada a Norte pela Ribeira de Santa Sofia, a Sul pelo Caminho Velho, atual Rua Dona Froiles Ermiges de Ribadouro, a Oeste pela Quinta do Conde Farrobo e a Este pelo ribeiro. Nesta quinta era cultivada vinha e árvores de fruto, principalmente maçãs.


Placa toponímica azulejar da Rua Dona Fraile Eriges de Ribadouro (antigo Caminho Velho)


Quinta da Valencia, Vila Franca de Xira
Nesta fotografia percebe-se o limite da Quinta com a Ribeira de Santa Sofia.

O Casal Novo situa-se perto de São Romão (Trancoso) no concelho de Arruda dos Vinhos e era uma propriedade relativamente pequena, onde era cultivada pouca variedade de produtos.
A Quinta da Costa Branca era uma propriedade no centro de Vila Franca de Xira, onde se insere hoje o Bairro CASI e o antigo Hospital de Vila Franca de Xira. Não se sabe ao certo os confrontamentos desta propriedade, no entanto pensa-se que a Norte a Rua Vasco da Gama é o limite e a Sul a Calçada da Costa Branca. Nesta Quinta havia uma enorme vinha, uma das melhores da região e árvores de fruto. Actualmente só resta o casarão e a Adega.
A Cimpor ainda adquiriu um terreno no monte em Alhandra, junto ao miradouro de Hércules (Homenagem às Linhas de Torres Vedras), onde hoje é feita a extração de pedra (pedreira).


Santa Quitéria de Meca, 28 de Maio de 1933
"Manuel Lopes Bexiga e sua esposa, filhos e filhas e genros e netos. Foi esta fotografia tirada para recordação da festa do ano de 1933", por Manuel Lopes Bexiga Junior
Relativamente a prédios urbanos, não se consegue precisar quantos e onde eram, mas alguns ainda são notáveis. Na Rua Vasco da Gama em Vila Franca de Xira, nº 37-39-41 existe ainda um prédio de quatro fogos, de dois pisos, com logradouros e adega. Este prédio fazia parte da Quinta da Costa Branca. Ainda na mesma rua existe mais um prédio com as mesmas características no nº 55 (azul claro). O prédio de três pisos e loja no piso térreo sito na Rua dos Heróis da Guerra Peninsular, em Vila Franca de Xira. Pertencia também o prédio sito no Largo Comendador Miguel Esguelha, nº 4, prédio urbano com lojas no rés-do-chão e mais dois andares dedicados à habitação. Na R. António Palha, detinha um prédio de 2 andares, sendo que tinha supermercado como loja, o qual foi herdado pelo filho Manuel Lopes Bexiga Junior.
Como se pode perceber, os bens eram muitos, outros já caíram no esquecimento, mas o monopólio que detinha fazia de si um dos homens mais ricos de Vila Franca de Xira. O controlo de todas estas propriedades era feito pelo próprio, pelo filho Manuel Lopes Bexiga Jr. e por alguns genros. Tinha vários foreiros a utilizarem os seus terrenos, o que era uma fonte de rendimentos, seja através de dinheiro, seja através de alqueires de produtos agrícolas.

Manuel Lopes Bexiga, esposa, filhos, sobrinhos e amigos, c. 1940
Festas de S. Quitéria de Meca, Alenquer

Uma das tradições familiares era a visita anual à Basílica de Santa Quitéria de Meca, em Alenquer, com o intuito de ver benzido o gado. Esta festa anual decorre no mês de Maio. Não se sabe se levavam gabo para a bênção durante a festa, mas sabe-se que participavam ativamente nas festas, sendo que iam de galera da Quinta da Valencia até Meca, cerca de 25 km por viagem.

Pensa-se que não recebeu heranças, mas segundo Soares Nunes (2006)[1] existe uma propriedade registada na Fazenda Nacional de 1841 denominada por Trindade, na qual constam casas e terras na zona de Calhandriz em nome do foreiro Manuel Lopes, pensando-se ser o pai de Manuel Lopes Bexiga. Não se sabe ao certo quantos irmãos tinha, contudo sabe-se que o Lavrador João Lopes Bexiga (28.041867 - 01.02.1956), Senhor da Quinta da Casa Nova em S. João dos Montes, concelho de Vila Franca de Xira, era um dos seus irmãos.


João Lopes Bexiga



João Lopes Bexiga e sua família
Proprietário e Viticultor, Quinta da Casa Nova, S. João dos Montes, Vila Franca de Xira
Anúncio publicitário no Jornal Ilustrado Português Republicano Independente "A Hora", Ano III, Nº 29, Administrador Bandeira de Tóro, Editor Raul de Liz, c. 1937
Quinta da Casa Nova, São João dos Montes
Retirado da Secções Cadastrais do Cadastro Geométrico da Propriedade Rústica.
Alguns familiares ainda pensam que ao adquirir uma falsa máquina de “fazer dinheiro”, Lopes Bexiga acabou por enlouquecer, pois percebeu que teria sido enganado por um próximo, tendo gasto uma fortuna na compra do dito artefacto. Esta revolta que sentiu quando percebeu que teria sido enganado, acabou por colocá-lo numa situação de "loucura", tendo falecido a 20 de Setembro de 1947. A noticia foi dada a toda a família pelo filho Manuel Lopes Bexiga Junior que bateu todas as quintas dos irmãos. Encontra-se sepultado na campa de família no Cemitério de Vila Franca de Xira.


Senhor Prior, o Pároco Ramalho e "Maltez Rico"
Bilhete Postal - Carte Postale - Union Postale Universelle
Colecção de postais portugueses
Pelo trisneto,


André Lopes Cardoso





[1] Soares Nunes, Graça – Vila Franca de Xira: economia e sociedade na instalação do liberalismo (1820-1850). – (Coleção Património Local, 8). Edições Colibri / Museu Municipal – Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 2006, pág. 108. ISBN 972-772-650-X

sábado, 26 de outubro de 2013

Tapeçarias de Portalegre


As Tapeçarias de Portalegre são como que murais, descrevendo uma maneira de estar na arte diferente, e que apesar de popular e artesanal, é reveladora de um espírito muito adulto e atento da arte. Fundada por Guy Fino e Manuel Celestino Peixeiro, em 1946, desde cedo que perceberam que o caminho do desenvolvimento seria o que estivesse relacionado com a arte atual, favorecendo assim a sua permanente atualização estética. Com todo este dinamismo e prestígio, resultantes do investimento inicial, emergiu uma marca incontornável, uma aposta na diferenciação do produto, iniciando-se com artistas ligados ao movimento neorrealista português, como Júlio Pomar, Lima de Freitas, Rogério Ribeiro, não querendo afirmar que estavam intimamente ligados a este movimento político e social, mas sim à contemporaneidade dos anos 40 e 50 do século XX. Extremamente decorativas, as Tapeçarias de Portalegre são obras de arte originais, traduzindo o espírito e o traço do pintor respetivo, sendo uma técnica totalmente manual (Perdigão, 2002).

Domingo Lisboeta, Almada Negreiros, Tapeçarias de Portalegre.
Dimensões – 4100mm X 2050mm (tríptico)
http://www.mtportalegre.pt/pt/catalogo, acedido a 13 de Março de 2013.


A grande responsabilidade de toda esta “construção” recai na desenhadora e na tecedeira, pois são elas que interpretam o desenho do artista, que será posteriormente um tapete. A desenhadora tem como função ajustar o desenho do artista, aumentando ou diminuindo, consoante o tamanho do tapete, recorrendo a um papel quadriculado próprio, sendo que cada quadrícula corresponde a um ponto – desenho de tecelagem. Posteriormente, a desenhadora cria os contornos de todos os elementos do desenho, formas e cores, passando posteriormente todo este trabalho à tecedeira, iniciando o processo de tecimento. A escolha dos matizes é crucial, caso não correspondam ao original, a tapeçaria pode perder legitimidade e impacte; para tal, as fábricas detém um vasto espólio de cores (cerca de 7000), de maneira a compor qualquer trama decorativa[1]. Após selecionadas as cores a utilizar, o desenho original é colocado no tear vertical e é iniciado o processo manual de tecelagem, criando assim uma ampliação ou diminuição, em lã, do desenho do autor. A construção da tapeçaria dá-se na horizontal, a cada passagem de trama decorativa passa-se uma fina trama de ligação, ficando esta escondida pela primeira, conseguindo-se estruturas únicas. As Tapeçarias de Portalegre são extremamente reconhecidas devido ao desenho original de artista e a todo o trabalho que é feito, desde a escolha das cores, dimensões da peça, técnica aplicada (Perdigão, 2002).
Todas as peças são limitadas entre 1 a 8 exemplares, autenticados pelo artista no bolduc[2]. São muitos os artistas que já viram as suas obras tecidas, sendo algumas feitas a convite e outras a pedido do próprio artista, vendo assim disseminados os seus conceitos e valores humanistas (Fortunato, 2013).

Bibliografia

Fortunato, F. (2013). Manufactura de Tapeçarias de Portalegre. Obtido em 13 de Março de 2013, de http://www.mtportalegre.pt/pt/

Perdigão, T. (2002). Tesouros do Artesanato Português - Têxteis (Vol. II). Lisboa: Editorial Verbo.



[1] A trama decorativa é o esquema de tecelagem, composta por oito cabos, permitindo assim misturar fios de diferentes cores, criando efeitos de profundidade, transparência, sobreposição. Toda a trama é concebida em lã, correspondendo a uma densidade de 2500 pontos/dm2.

[2] Certificado de autenticidade, o qual inclui o título da pintura, o número e dimensões da peça.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Cais da Jorna

O Cais da Jorna situa-se junto ao Jardim Municipal Constantino Palha, na zona ribeirinha (doca) de Vila Franca de Xira. Foi durante anos, o local onde os capatazes vinham buscar os “jorneiros” para trabalharem nas Lezírias. Estes capatazes vinham em barcos das Lezírias e, chegando ao atual Cais da Jorna, apontavam o dedo às pessoas que queriam que embarcassem para trabalhar nas Lezírias. Para tal e, em jeito de homenagem, a Câmara Municipal de Vila franca de Xira decidiu, posteriormente à remodelação da zona ribeirinha, agraciar o espaço com uma escultura de João Duarte, representando uma “cena de jorna” típica da zona em questão.

Segundo João Duarte (s.d.), “as comunidades e as culturas não são estáticas. Cada comunidade escolhe e integra os novos elementos de modo diverso, construindo ao longo do tempo, em função do espaço que se dá e das gentes que acolhe, comportamentos e condutas especificas que a caracterizam. O Cais de Vila Franca de Xira situado na margem direita do rio Tejo, é um ponto de partida e de chegada de gente, mercadorias, ideias e mudança. Há muitos anos que acorda e marca o tempo pelo movimento do trabalho. É neste passado refletido que se interpreta o presente e se constrói o futuro. No Cais de Vila Franca de Xira, perto do Quiosque do Manuel da Barraquinha, era o local onde tinha lugar a negociação das jornas, entre os trabalhadores rurais e os patrões ou capatazes, conhecido pelo (Cais da Jorna). Ali se juntavam valadores e ceifeiros diariamente à espera da sua oportunidade para embarcar para as Lezírias. Foi em finais do séc. XIX e sobretudo no séc. XX, quando se verificou um grande desenvolvimento no cais. O cais faz parte da cidade e da população! Por isso a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira pretende erguer um monumento alusivo ao “ Cais da Jorna” a fim de homenagear os homens e as mulheres que passaram por este local. Ao ser adjudicado o monumento, idealizei e desenvolvi um projeto figurativo, simbólico e simples, para que a população atual e futura se reveja nele.
Monumento que tenho o maior prazer em executar, dado que no meu curriculum, já não é a primeira peça escultórica que perpetua na resistência e na luta do nosso povo.
Tendo sido escolhido um local perto do Quiosque do Manuel da Barraquinha, local muito específico, executei um projeto escultórico em que tivesse elementos que simbolizassem o significado do termo e do conceito do “Cais da Jorna”. Modelei quatro figuras em bronze, representando os trabalhadores (valadores e ceifeiros) assim como uma placa em bronze com uma mão a apontar e respectivo braço, simbolizando o patrão/ capataz. Este é apenas um dos meus olhares, um dos muitos possíveis que poderá́ perpetuar as gerações de trabalhadores e patrões, que aqui trabalharam e viveram, restando-lhes, por isso a memória.”


Homenagem ao Cais da Jorna, João Duarte, 2013
450 X 250 cm, bronze
 O monumento foi inaugurado a 6 de Julho de 2013, pela Sr.ª Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Maria da Luz Rosinha. A peça escultórica conta com quatro representações antropomórficas, que estão dispostas sobre um pedestal de mármore.
Defronta às figuras cita-se Alves Redol: "Ali, a dois pasos da estrada de ferro sob as agulhas dos mastros das fragatas, se laçava o destino dos homens por toda a semana."

Homenagem ao Cais da Jorna, João Duarte, 2013
450 X 250 cm, bronze

Homenagem ao Cais da Jorna, João Duarte, 2013
Pormenor de Valadores (casal)
450 X 250 cm, bronze

Homenagem ao Cais da Jorna, João Duarte, 2013
Pormenor de Ceifeiros (casal)
450 X 250 cm, bronze

Homenagem ao Cais da Jorna, João Duarte, 2013
Pormenor "mão do capataz que escolheria os trabalhadores"
450 X 250 cm, bronze


João Duarte fez um trabalho um pouco antagónico, se por um lado representa, e bem, os utensílios dos faladores e ceifeiros, por outro amplia e deforma as representações humanas, o que acaba por chocar o transeunte, devido à volumetria imensa das peças. Porém, a ironia também não foi descurada, visto ser uma época e uma classe social que vivia em condições precárias, as representações para serem fidedignas, teriam de ser, supostamente, de pessoas magras, o que acontece é precisamente o contrário. É uma peça escultórica que, apesar de representar uma realidade da nossa Cultura Popular, é altamente contemporânea e sofisticada. 


André Lopes Cardoso